De acordo com o CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA) uma a cada 36 pessoas são autistas. No censo realizado em 2022, Brasil apontou 2,4 milhões de pessoas com autismo.
Se pensarmos em organização social, a inclusão é um termo relativamente novo. Dos depósitos humanos para o movimento de inclusão, precisou passar muitos séculos. O assunto é espinhoso porque há poucas certezas e um longo caminho a se percorrer até o acesso. Nós tateamos, o governo tateia em busca do melhor e as famílias clamam por dignidade e direitos.
E quando eu falo em inclusão para pessoas neurodivergentes, não me refiro ao estacionamento preferencial ou repreender os olhares tortos que possam surgir pelo caminho, eu falo em criar ambientes que propiciem o pleno desenvolvimento de seres humanos para que estabeleçam laços, constituam famílias, estudem e trabalhem.
O autismo não é uma doença, é uma condição do neurodesenvolvimento que afeta a comunicação, a interação social e os comportamentos em diferentes níveis. O que isto quer dizer na prática? Que uma pessoa autista precisará de muito mais estímulo, suporte e repetição para executar tarefas do que uma criança típica.
Aqui em São Sebastião, como em outras partes do mundo, as mães foram o motor propulsor. Entre associações, grupos, rodas de conversa e redes sociais a demanda era a mesma: nossos filhos precisam tratamento correto para se desenvolver. E nestas busca por garantia de direito, foram surgindo leis e regras.
Um exemplo é a Lei Berenice Piana ou Lei nº 12.764/2012. Ela estabelece, entre outras coisas, a necessidade de suporte especializado para criança atípica em salas de aulas. Todo mundo cumpre, mas os resultados estão aquém do esperado. Por quê? Porque infelizmente, a lei não determina o perfil do profissional e nem suas prerrogativas, deixando um vácuo para a má vontade ou ignorância dos gestores.
Por perceber a falta de profissionais especializados em autismo em 2019, eu juntamente com outras mães de crianças autistas resolvi fundar a ASSOCIAÇÃO INTEGRA, nosso objetivo era levantar meios pra proporcionar um tratamento especializado para a região. Na época, a estimativa era de que havia 180 autistas entre crianças e adolescentes. Com isso determinamos como meta criarmos um espaço que deveria atender, no mínimo, 100 autistas. Iniciamos os trabalhos e com ele uma obra para termos o tão sonhado espaço de terapias especializadas no autismo.
Em paralelo a obra e durante a pandemia, criamos o projeto ABRACE, a INTEGRA tem a EQUIDADE como um forte princípio, paga quem pode e o quanto pode e para aqueles que não podem, buscávamos apadrinhamento. O projeto levava intervenção ABA em domicílio, por pelo menos 3 vezes na semana com duração de 2 horas.
Fomos do luto para luta. Conseguimos colaboradores, fizemos rifas, participamos de festas juninas, recebemos doação de materiais de construção, juntamos e vendemos tapinhas plásticas e mesmo assim, não conseguimos finalizar a obra, que ficou 2 anos parada nos anos de 2023 e 2024 por falta de recursos.
A luta foi ficando cada dia mais exaustiva, além da necessidade de fazer o projeto, buscar por garantia de direito na Câmara Municipal, secretarias, tínhamos nossos filhos e suas necessidades de tratamento e cuidados que não podem esperar, somados a vida cotidiana da casa, trabalho. Muitas mães foram adoecendo, se frustrando e desistindo, não do filho, mas da luta coletiva. Eu não conto isto para criticar, pois varias vezes também quis desistir, entendo como é difícil equilibrar as responsabilidades com uma criança e um sistema que é feito para nos adoecer, as demandas triplicam quando é uma criança atípica e sei que muitas delas estavam sozinhas, sem rede de apoio.
Como muitos devem saber, desde 2024 não sou mais a presidente da INTEGRA. Sou Fisioterapeuta, empreendedora desde 2011 e proprietária da Clínica Passo a passo ABA, clínica especializada em autismo e outros transtornos do neurodesenvolvimento. Desde a chegada do meu filho Noah tenho me especializado em autismo e abordagens que tenham evidência. Ninguém tem coragem de tratar uma infecção com pílulas de farinha, ou indicar um tratamento que não envolva radioterapia ou quimioterapia para pacientes oncológicos, e POR QUE falam de tratamento para o autismo sem evidencias cientificas, adequações, suporte especializado e carga horaria individualizada?
Transtornos do neurodesenvolvimento, não tem cura, mas tem tratamento adequado que gera desenvolvimento. Na INTEGRA e na minha clínica as intervenções são baseadas na ABA (Applied Behavior Analysis) que é Análise do Comportamento Aplicada. Essa ciência engloba 23 estratégias de intervenção e é recomendada pela OMS.
Com a inviabilidade da obra da INTEGRA e especialização da Passo a Passo ABA, a diretoria da INTEGRA definiu que o melhor caminho seria estabelecer parceria.
Hoje, em 2025 fizemos um levantamento entre os grupos de mães e profissionais de apoio, estima-se 350 laudados ente crianças e adolescentes, mas sabemos que este número não representa a realidade, porque não contabiliza adulto e crianças em investigação ou sem laudo. São Sebastião ainda não possui nenhum centro especializado em autismo, mães de Costa Sul a Costa Norte clamam por esse serviço. Centros de atendimento as pessoas autistas são URGENTE , sem esses espaços estamos condenando autistas e suas famílias. A inclusão genuína é feita por várias mãos.

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