O Sapinho do Morro do Esquimó

São Sebastião, mas especialmente Juquehy, sempre foi cenário dos melhores momentos de minha vida. Namorei, casei, minha filha aprendeu a andar de bicicleta… minhas melhores memórias afetivas estão eternamente emolduradas por esta natureza majestosa.

Na madrugada de 19 de Fevereiro, senti a força da natureza desabar em uma chuva assustadora, infindável, que doía dentro da gente de tão intensa.

Na manhã seguinte, meu coração estava agitado. Eu não poderia abandonar Juquehy. Aqui sempre encontrei abrigo, acolhimento, alegria, amor, felicidade, sempre foi meu paraíso, e eu tinha que salvá-lo, com as minhas mãos.

Não sou competente como um profissional da Defesa Civil, um Bombeiro, um Socorrista… o que fazer?  Pensei, gosto de pessoas, fiz gestão de inúmeras crises no mundo corporativo, consigo ajudar. E aí, comecei trabalhar como voluntária.

Mas, como não poderia ser diferente, foi Juquehy que me acolheu e me salvou.

Caminhar ao lado das pessoas, escutar suas histórias de vida, conhecer casas, igrejas, ruas, morros, caminhar ao lado do majestoso Rio Juquehy, aprender com a comunidade de Juquehy sobre amor, família, honra, trabalho, dignidade, sofrimento, humilhação, inteligência, perspicácia. Aprendi muito mais do que ofereci.

Aprendi que ser desprovido de vaidade, e ter foco em soluções e pessoas, será um grande viabilizador de pontes para ampliar alcances e perspectivas da sociedade como um todo.

Nesta tragédia, os temas de preservação/educação ambiental têm sido abordados como urgentes, e muitos estão levantando a voz e falando sobre coisas que precisamos coibir, mudar, transformar e aplicar em processos, mas não em pessoas.

Pessoas precisam que suas necessidades básicas sejam garantidas – falo aqui do básico mesmo: comida e moradia – necessidades que precisam ser discutidas e implementadas dentro do contexto de cada localidade. Sem isso, não existe programa ambiental que funcione. Sem isso, não existe programa educacional que funcione. Sem isso, não existe programa de saúde que funcione. Sem isso, não se constrói o futuro de uma nação.

E pare de falar que o mundo não funciona, porque o político não fez. O voluntariado me ensinou que cada um fazendo um pedaço, a gente faz muito. Ensinou também que a força da coletividade pressiona a tomada de decisões em todas as esferas. Coloque a mão na massa e construa um pedacinho daquilo que você acredita, hoje.

Se a sua vida inteira desabasse o que você salvaria? Minha nova amiga, frente a este cenário desolador da foto, pede ao colega: “precisa pegar aquele sapinho, foi meu avô que deu para minha filha e é a única lembrança que tenho dele”.

Qual o sapinho que você vai salvar hoje?

sobre o autor

  • Pioneira na indústria de tecnologia no Brasil, atuou por mas de 30 anos como executiva de grandes multinacionais de tecnologia. Atualmente se dedica a conselhos corporativos e projetos voluntários, focados em inovação, preservação ambiental e desenvolvimento humano. É Bacharel em Comunicação Social pela Universidade Metodista, com especializações em tecnologia, negócios e ESG pela Columbia Business School, Fundação Dom Cabral e Fundação Getúlio Vargas. https://www.linkedin.com/in/katia-vaskys/

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