Especulação Imobiliária e Ocupação

Estávamos, como sempre, no Maré-Mansa. Seria umas 17 h, fim de uma bela tarde de
sol. A questão apareceu quando um casal e uma criança, parecendo estar saindo da
praia e indo para casa, caminhava ao longo da calçada que margeia a avenida:

“Pra você ver” – comentou um confrade, o Ciro – “Esse casal mora aqui do lado e,
para ir à praia, precisa andar pelo menos uns 500 m. Não existe mais acesso fácil a nenhuma praia aqui em São Sebastião.”.
Realmente, a especulação imobiliária é muito forte aqui – como parece ser em
qualquer lugar do país que apresente potencial turístico. Fizemos as contas: entre a primeira prainha do bairro São Francisco, à esquerda de nossa referência, e a praia do Arrastão, à direita, são de 800 a 900 m de calçada, com apenas um acesso à praia – um bequinho que vive cheio de lixo e que, para minha sorte, fica praticamente ao lado aqui de casa. E assim vai, em toda cidade se São Sebá. Não existe acesso fácil a praia nenhuma e muitos reclamam. O que impede o acesso? Casas.
Entre a avenida e a praia, existem casas… e que casas! Alto padrão, grandes terrenos, muros altos e nenhuma passagem para os pobres mortais chegarem à praia. Aliás, aqui pertinho, em Ilhabela, é pior, pois não há acesso nenhum ao mar onde não existe praia com seus becos. Todos os caminhos que levam à costa, através da mata ou das pedras, estão fechados por muros e cercas (lembrei aqui daquele senador que é “dono” da fechadíssima Ilha das Cabras, dê uma pesquisada no Goooooogle e você vai entender do que falo).

“É uma encrenca, isso”, continuou o Ciro. “Mas… MAS… se você fosse o proprietário de uma casa desse padrão, nesses mesmos locais, você faria diferente? Faria uma passagem lateral no seu terreno para facilitar a chegada de pessoas à praia em frente à sua casa? Sei não…”. Ninguém contestou.

“E mais, tem algo que pode ser muito mais complicado que a especulação
imobiliária: a ocupação de encostas da mata atlântica, por suas consequências em diversos setores”.
Curioso, fui me informar. É assustador mesmo. Fotos aéreas mostram o crescimento desenfreado de ocupações do litoral norte de SP. O crescimento da região e a construção das casas e hotéis de luxo sempre atraiu mão de obra, mas hoje, além disso, a chegada de novos moradores ocorre pelos grandes projetos, prováveis fontes de emprego: a expansão do porto e o contorno rodoviário de São Sebastião, a ampliação da Rodovia dos Tamoios e a unidade de tratamento de gás de Caraguatatuba. São empregos temporários, mas quando o trabalho acaba, os trabalhadores continuam na cidade e, sem moradia, ocupam desordenadamente as encostas. Como acontece em qualquer lugar do Brasil nessas condições, é um sério problema para o município.
Aí, eu entendi o ponto de vista de meu amigo Ciro. O que é “bom” ou “ruim” – ou – pior – o que é “justo” ou “injusto” ou ainda “certo” ou “errado” é totalmente relativo, dependendo apenas de qual “lado da rua” você olha. Que a especulação imobiliária precisa ser contida, não tenho dúvidas; que a ocupação das encostas é realmente uma séria questão social (entre tantas…) também.
Então… fica a questão quase óbvia: com qual desses problemas vocês acham que qualquer prefeitura prefere lidar?.
Março 2014

sobre o autor

  • Luiz Carlos Correard Pereira, o “Luiz Mascaranha” (1950), é paulista de Lorena. Engenheiro Mecânico por formação e biólogo amador por paixão, desde que se entende por gente desenha, escreve poemas e trovas, alguns contos e muitas crônicas, com publicações em redes sociais e no site “Recanto das Letras”.

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