As trilhas de longo percurso não são uma modalidade nova de turismo, mas vem ganhando força nos últimos anos, justamente por aliar desenvolvimento e preservação. O litoral norte de São Paulo tem um ecossistema econômico frágil, somos cronicamente dependentes dos royalties e vivemos em área de preservação, o que limita muito as atividades permitidas. Os royalties se mantem por liminar, até quando ninguém sabe.
Com exceção de Caraguatatuba, as demais cidades estão ou já implantaram as TPAs (Taxa de Preservação Ambiental). A proposta é taxar veículos visitantes e destinar a arrecadação para mitigar os impactos causados pelo turismo.
Um dos lados mais perversos do turismo é a descaracterização do local e Barcelona é um exemplo muito emblemático. Em 2023 recebeu dez vezes mais pessoas do que sua população local, o impacto da presença maciça de turistas inviabilizou a cidade. O trânsito é permanentemente caótico, moradores são obrigados a conviver com ruído noturno e sujeira. Qualquer semelhança com o nosso verão não é mero acaso. Visitar um local, nestes termos, não te permite conhecer o local, o litoral norte de São Paulo é muito mais interessante quando não é verão.
Uma das soluções é a criação de roteiros e atividades que não dependam do verão para acontecer e mirar em perfis específicos de turista. Direcionar o público não significa que a cidade seja elitista ou não democrática, todos são bem vindos, mas só para dar um exemplo, um local com cassinos atrairá jogadores e um local com trilhas e natureza atrairá esportistas e pessoas que gostam de passar um tempo na natureza. Sem mágoas.
Posto isto, chegamos à iniciativa do Instituto Ilhabela sustentável que, com o apoio do Instituto Semeia e suporte da Secretaria Estadual de Turismo e Viagens, Fundação Florestal, Ministério do Meio Ambiente e municipalidades está desenvolvendo a CRMA – Ciclo Rota da Mata Atlântica, uma trilha de longo percurso.
A CRMA já está mapeada e conecta diversos caminhos históricos, estradas vicinais, trechos de fazendas, unidades de conservação, percorrendo o planalto da Serra do Mar em uma rota turística, que poderá ser percorrida tanto de bicicleta como a pé.
O percurso principal inicia-se no Caminhos do Mar, São Bernardo do Campo, ligando caminhos antigos como o Caminho do Sal (Zanzalá, Carvoeiros e Beto Ponteiro), Caminho do Imperador, Caminho dos Tropeiros, Estrada do Pavoeiro, Caminho do Padre Dória, e também conecta-se com outras rotas já existentes, como a Rota Márcia Prado (São Paulo – Santos), Rota da Luz, Volta da Represa em Paraibuna.
Em Cunha-SP a rota se conecta com a Estrada Real, Caminho da Fé, Caminho Senhor Bom Jesus do Livramento, e no trecho final, no Parque Nacional Serra Bocaina, sempre nas bordas da Serra do Mar e terminando no município de Bananal, já na divisa do estado do Rio de Janeiro.
São mais de 500 Km que passam por diversas unidades de Conservação (Parque das Neblinas, Parque Estadual Serra do Mar e Parque Nacional Serra da Bocaina) formando um trajeto com natureza e caminhos históricos.
Os trechos 2 e 3 já estão sinalizados e agora em novembro, sinalizarão os trechos 4 e 5. Até o final do mês o trecho de Taiaçupeba até Cunha estará pronto, algo em torno de 300km. Até o final do ano, serão 550Km sinalizados, tornando-se uma das principais rotas de cicloturismo do estado.
