Aqui em São Sebá, sou um faz quase-tudo. Além de pescar, eu também faço
rango (e lavo a louça, sim), passo uma vassoura na área externa (tá bom, tá
bom, de vez em quando), espalho quirera e ponho bananas para os
passarinhos no quintal, cuido da frente da casa, do jardim e de minhas plantas
– meu caramanchão de maracujá está carregado (da primeira florada e logo
vou colher alguns para dar uma cor à minha vodca), além de fazer um monte
de outras coisas que um bom tomador de conta faz.
Sim, eu tomo conta de algumas coisas porque, se eu não fizer, ninguém faz (ou
ninguém faz porque eu faço, sei lá) – tipo apagar luzes em cômodos vazios,
desligar a TV quando ninguém está vendo, colocar água no filtro, esvaziar os
cestinhos de lixo, tirar o lixo, separá-lo e colocá-lo no lugar certo para a coleta
etc etc etc – ou seja, o mesmo que todos fazemos em nossas casas.
Mas não o Almeida. Ele não toma conta só da casa dele. Ele toma conta de
tudo de todo mundo. O que ele vê ou sabe tem que estar do jeito que ele acha
certo. Vive criticando a forma com que os vizinhos fazem qualquer coisa:
- “Pô, eles deviam amarrar o saco de lixo assim e assado, não do jeito que
está, pode vazar na rua”. - “Droga, o seu Zé devia apagar a luz da garagem, vai ficar acesa o dia
inteiro…” - “Credo… o coronel devia podar melhor essas plantas… tá sobrando dos
lados…” - “Nossa, o fulano ali precisa mandar cortar a grama…”
- “Não sei como eles ficam dormindo até tarde desse jeito…”
- Olha só, olha só… roupa pendurada na janela! Eles não tem vergonha…” E por aí vai. Mas, pior ainda, ele fica “tomando conta” do que você está
fazendo quando está com ele! Tava eu pescando outro dia desses, lá chega o
Almeida – justamente na hora que eu tinha acabado de enroscar minha isca
numa pedra e estava tentando tirar com jeito para não arrebentar – e ele logo quis “me ensinar” a como tirar o enrosco, pois “do jeito que você está fazendo não vai conseguir”. Pegou a linha… puxa daqui, puxa dali e – claro – nada de soltar. Entrou na água, saiu da água, andou pra lá, andou pra cá, mas não tinha jeito. Tava preso mesmo. Ficou um tempão nisso… e eu ali com cara de tacho.
Aí, eu tomei a decisão que tinha de ser tomada: puxei a linha até arrebentar.
Faz parte do negócio pescaria, né? Pois o Almeida ainda reclamou comigo: “Pô, você apelou, eu já ia soltar essa linha. Agora você perdeu sua isca
artificial!”
Pensei comigo: “É, Almeida, eu perdi a p de um camarãozinho artificial. Que
melda, não?”. E fui pra casa cuidar da vida. Da minha vida.
E você, tem algum Almeida por perto?
Abril/2014
