Ódio de classe e ano eleitoral

A pantomina

Parece que em ano de eleição vale tudo. O apresentador Luciano Hulk, em um evento para empresários, criticou o programa bolsa família. Na fala, citou uma cidade onde 56% da população é dependente do bolsa família e associou o programa ao problema de mobilidade social no Brasil. De acordo com ele, o brasileiro precisará de 9 gerações para sair da vulnerabilidade social e programas sociais como o Bolsa família desestimulam as pessoas.

Oi?

O apresentador utilizou um relatório feito em 2018 pela OCDE, comparando 30 países (atualmente somos algo entre 194 e 206, dependendo do seu espectro político). O relatório reconhece as iniciativas do governo em mitigar a desigualdade social, enaltece a saída de 25 milhões de brasileiros da pobreza graças a programas sociais implantados desde 2003, só lamenta que não é suficiente. No final, pasmem, recomenda mais investimentos em programas sociais, atenção à educação e saúde. Não é o que está sendo feito?

A mobilidade brasileira

Realmente os números não são muito animadores, de acordo com o “Atlas da Mobilidade Social”, publicado em 2025, os jovens têm mais chances de superar seus pais, mas infelizmente não migram para o grupo dos 50% mais ricos.

Ao contrário do que o apresentador afirma, o programa Bolsa Família é um motor propulsor para a mobilidade social. referendado pelo Banco Mundial, conta com seu apoio técnico e financeiro, o programa serviu de inspiração para programas similares em dezenas de países.

O programa chega à uma parcela da sociedade que historicamente era esquecida, outro ponto importante é vincular o benefício a frequência escolar e acompanhamento médico dos filhos (as ações que o relatório recomenda).

No final de 2025, a FGV apresentou um estudo sobre o Bolsa Família e a quebra do ciclo de pobreza. Os principais resultados são:

– 60,68% dos beneficiários cadastrados em 2014, deixaram o programa até 2025;

– O maior grupo é composto por adolescentes, 68,8% entre 11 e 14 anos e 71,25% entre 15 e 17 anos.

O estudo ainda aponta que fatores transversais são decisivos para os resultados. Etnia, escolaridade (do indivíduo e dos seus pais), gênero, características do trabalho e localização ajudam na mobilidade social. O grupo com mais chances de ascender são os homens brancos e as mulheres negras o grupo com condições mais desafiadoras.

A região Sul e Centro-oeste lidera a saída de indivíduos do programa, 79,65% seguido por 76,54%, área urbana supera área rural. 79,40% de pessoas que deixaram o programa ingressaram no mercado formal com a carteira registrada e 65,54% estão por conta própria.

Apesar da dificuldade em ingressar no grupo dos mais ricos, 49% estão em situação financeira melhor do que os pais. Se o copo está meio cheio ou meio vazio depende de quem olha, por um lado há a frustração de ainda permanecer no grupo dos 50% mais pobres e do outro, entender que, houve uma melhora significativa na qualidade de vida. As condições no Brasil melhoraram muito, só comparar com as décadas de 80 e 90 onde a mobilidade era descendente, gerada pela redução de trabalho e inflação crônica.

O governo tem afunilado o programa, promovendo incentivos para os grupos com pior performance como mulheres, negros e pessoas em vulnerabilidade extrema.

Parafraseando Júlio Cortázar, o desafio é combatido por pontos, não por nocaute.

Mobilidade no litoral norte de São Paulo

A região, apesar de estar levemente abaixo da região Sudeste, tem indicadores melhores do que o resto do Brasil. Caraguatatuba é o cenário mais desafiador para chegar aos 10% mais ricos e São Sebastião, apesar do indicativo baixo, é a cidade mais propensa a manter índices de extrema vulnerabilidade social. No mais, a região perpetua a tendência brasileira, mantendo a maioria dos jovens nos 50% mais pobres.

O bolsa família tem 25.862 famílias cadastradas em Caraguatatuba, 6.145 famílias em Ilhabela e 15.852 famílias em São Sebastião (fonte governo federal https://aplicacoes.cidadania.gov.br/ri/pbfcad/index.html )

Considerações

Todo político entende a importância do programa e nenhum deles teria coragem de cortá-lo. A prova disto foram os governos Temer (2016 a 2018) que reajustou o benefício e zerou a fila de espera e, o governo Bolsonaro (2018 a 2022), que vociferava contra o programa e seus dependentes em palanques e redes sociais, mas quando assumiu a cadeira mudou o nome do programa, mas manteve o foco em famílias em situação de extrema pobreza, incorporando mais benefícios focados na primeira infância, jovens e produtores rurais.

Então por que, após a criação do benefício, em todo ano eleitoral surgem ataques contra o programa? Para quem é direcionado? Qual grupo de eleitorado querem atingir?

A educação hoje não é mais garantia de um bom emprego e classe média é o grupo mais sensível as variações econômicas. A classe média vive no limite e expõe toda sua ignorância e fragilidade sem pudor. Não é raro percorrer as redes sociais e assistir a milhares de recortes debochando das suas aspirações e anseios. Talvez, seja o momento do governo dispensar alguma atenção ao grupo. Por óbvio não falo em direcionar verbas de programas sociais para algum afago à classe média, há problemas mais sérios do que delusions (olha eu aqui debochando), mas esquecemos que são pais e mães que estão lutando duro para darem qualidade de vida para seus filhos e todo o preconceito que vomitam, muito provavelmente tem origem em alguma má experiencia. Enquanto devolvermos o ódio, o grupo continuará sendo presa fácil para discursos mentirosos e populistas.

FGV: Apresentação

https://portal.fgv.br/noticias/estudo-da-fgv-sobre-o-bolsa-familia-revela-quebra-de-ciclo-da-pobreza-intergeracional

FGV mapa da riqueza

https://cps.fgv.br/riqueza

Atlas da mobilidade social no Brasil

Artigo da OECD

https://www.oecd.org/en/topics/social-mobility-and-equal-opportunity.html#key-messages

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