Gênero e eleições

Duas em cada três ocorrências não chegam ao conhecimento da justiça, mais da metade das vítimas de feminicídio não possuíam boletim de ocorrência contra o agressor. As razões são inúmeras, medo de represália, dependência financeira, filhos, exposição e julgamento social.

Apesar do quadro assustador, há uma tímida reação, o primeiro semestre de 2026 registrou recorde de solicitação de medidas protetivas, só na nossa região do Vale do Paraíba foram registradas mais de 5.000 ocorrências contra os direitos das mulheres.

Mesmo com 20 anos da lei Maria da Penha, da subnotificação e desconhecimento de grande parte das mulheres, a lei continua pautando o debate na Câmara Federal, mas em um movimento contrário, entre 2025 e 2026 foram apresentadas cerca de 89 propostas de alteração na Lei Maria da Penha, ora flexibilizando, ora atenuando. Uma das propostas mais emblemáticas veio da deputada Julia Zanatta (PL-SC) que pretendia punir severamente denúncias caluniosas. Olha só, a mesma proposta de um dos candidatos a deputado federal pelo litoral norte. Nem criatividade tem.

Uma das explicações para tanta resistência aos direitos das mulheres é a expressiva quantidade de deputados denunciados por violência de gênero ou com medidas protetivas, além de uma parcela da população que simplesmente odeia mulheres.  

Em um momento de subnotificação, onde a vítima tem inúmeras razões para não denunciar, alguns deputados e candidatos acham de bom tom criar mais um obstáculo para as denúncias. Nem todas as situações de violência produzem provas materiais e em centenas de casos é a palavra de um contra a do outro. A mulher precisa morrer para ter razão.

A reação veio pelo STF, ampliaram o alcance da lei, agora qualquer caso de violência de gênero, mesmo fora do ambiente doméstico está passível de punição. Dá para ouvir de longe o chororô do Jurandir.

Legislar em causa própria já é péssimo, imagine anunciar em campanha que fará isto. Os argumentos são os mesmos do período paleolítico: “A mulher é louca”, “a mulher é apaixonada por mim”, “ela inventou porque quer meu dinheiro” e assim vai. O argumento mais recente que eu ouvi e talvez mais original foi que “Ela se agredia e dizia que era eu”.  

Dá até para entender o porquê alguns começarem a reclamar do voto feminino, podem reclamar, a gente vai de passinho em passinho, não tem problema demorar, só não podemos retroceder. Vote em quem te respeita.

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  • Formada em Comunicação social pela FAAP. Trabalha com pesquisa de mercado, pesquisa de opinião e comunicação política e institucional.

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