A Sangria do Feminicídio: Controle, Misoginia e a Urgência de Mudança Cultural

A luta pela igualdade de direitos das mulheres, travada ao longo de décadas, trouxe conquistas importantes que hoje são consideradas mínimas, mas fundamentais: o direito ao salário igual ao dos homens na mesma profissão, o direito ao voto, à livre expressão de opinião, ao trabalho fora de casa e ao divórcio. Apesar desses avanços, muitas mulheres ainda não conseguem exercer plenamente o direito mais básico que é escolher com quem se relacionar.

As mulheres ainda são vistas pelos homens como objetos que devem obediência absoluta, o que contribui para a persistência do feminicídio como uma forma de controle e punição.

O aumento registrado nos casos de feminicídio no Brasil — que atingiu recorde em anos recentes, com 1.568 vítimas em 2025, alta de cerca de 4,7% em relação ao ano anterior, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública — pode estar relacionado ao maior acesso das mulheres ao feminismo e à consciência de seus direitos. Ao reconhecerem relacionamentos tóxicos e abusivos, muitas decidem romper com eles. É exatamente nesse momento de tentativa de separação ou rompimento que o risco de feminicídio se intensifica, pois o agressor reage à perda de controle com violência letal. Assim, o crescimento dos números não reflete necessariamente mais violência em si, mas maior visibilidade e denúncia da violência já existente, somada à reação violenta de homens que não aceitam a autonomia feminina.

Além da legislação (como a Lei do Feminicídio) e da atuação efetiva do Estado na aplicação das leis, é essencial ir além: pais e mães precisam assumir responsabilidade na educação dos meninos. Ensinar apenas as meninas a se protegerem é insuficiente; é preciso educar os meninos para o respeito à igualdade e mantê-los afastados de movimentos masculinistas tóxicos, como o denominado **red pill**.

Esse movimento, de caráter misógino, prega a supremacia masculina e a subordinação das mulheres. Ele tem arregimentado principalmente adolescentes e jovens por meio das redes sociais, incluindo plataformas como o Discord  — originalmente usada por gamers para interação online, mas que tem servido de espaço para disseminar ódio às mulheres (misoginia). O que antes eram garotos introvertidos, com poucas conexões sociais ou afetivas não atendidas no ambiente familiar, encontram nesses grupos virtuais um senso de acolhimento e pertencimento. Nesse ambiente, são estimulados e desenvolvem uma visão tóxica em que culpam as mulheres por seus próprios fracassos, frustrações e rejeições, reforçando a misoginia como identidade.

O combate à violência de gênero está, portanto, intrinsecamente ligado à conexão familiar e à educação desde a infância. É no lar que as crianças aprendem a respeitar as diferenças entre meninos e meninas — ou, ao contrário, a diminuir e subjugar as mulheres. Atos simples no cotidiano de uma família fazem diferença:

– Solicitar que o menino participe da limpeza e dos afazeres domésticos, valorizando o trabalho majoritariamente realizado por meninas e mulheres;

– Mostrar que ninguém nasce sabendo faxinar — as meninas são ensinadas, e os meninos também podem e devem aprender;

– Envolver o filho nos cuidados com irmãos mais novos, para que entenda que cuidar de crianças não é “coisa de mulher”, mas responsabilidade compartilhada de pais e mães.

Portanto, para estancar a sangria da epidemia de feminicídio que assola o Brasil, são necessárias ações articuladas em múltiplas frentes:

– Regulamentação mais rigorosa da internet**, com responsabilização das plataformas pelo combate à disseminação de conteúdo de ódio contra mulheres;

– Enrijecimento das penas** para crimes contra a mulher, tornando-os inafiançáveis e com punição efetiva;

– Educação familiar com perspectiva feminista, que ensine desde cedo que meninos e meninas têm iguais direitos e deveres — na esfera social, econômica e política.

Somente com essas medidas combinadas — leis fortes, fiscalização digital responsável e mudança cultural profunda na criação dos filhos — poderemos avançar de fato rumo a uma sociedade em que as mulheres exerçam plenamente sua autonomia sem que sejam mortas por isso.

sobre o autor

  • Nascida em São José dos Campos, filha de um petroleiro sindicalista baiano e uma dona de casa mineira, cresceu em um ambiente politizado e comunitário. Mudou-se aos 15 anos para São Sebastião, onde concluiu o ensino médio, e formou-se em Relações Públicas pela UNESP em Bauru. Casou-se em 2005 com João Rogério, de família caiçara, e, após perder a filha em 2010 devido a violências obstétricas, transformou o luto em ativismo. Atuou em Conselhos Municipais de Saúde e Direitos da Mulher, onde foi vice-presidente e criou um guia sobre violência obstétrica. Ministra palestras sobre violência de gênero e educação sexual, é professora de História, pós-graduada em Gestão Estratégica de Políticas Públicas pela UNICAMP e estudante de História e Cultura Afro-brasileira. Articulou emendas parlamentares para academias ao ar livre, para o Centro de Controle de zoonoses e para a Associação de Amparo a Mulher Sebastianense – AAMSS, e coordenou o Núcleo de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas em São Sebastião até 2024.

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