Quem vive ou está de passagem pelo litoral norte nesta época do ano é norteado pelas chuvas. Os alertas de tempestade passam a ser quase diários. São tantos gritos de “É o lobo! É o lobo!” que a gente começa a ficar anestesiada. Não estou reclamando, eu entendo que prever é quase mágica. Previsão de 300 mm, chove 70 mm. Previsão de 150 mm, chove 800 mm.
Você cuidando da sua vida e vem a chuva. A chuva não para. A chuva engrossa. A chuva persiste. Dou uma olhada no rio, dentro da normalidade. Tábua de mares e fase da lua. Equação e fé. E a chuva continua no mesmo ritmo. Começo a percorrer os grupos da cidade para saber sobre barreiras, pontos de alagamento ou acidentes. Acaba a luz e junto com ela a internet. Celular e espiada no rio. E a chuva chovendo, sem se importar com o meu sofrimento. Parece até que fica mais forte, só para me atormentar. Perdi o sono. Moro em um lugar alto, vejo a tragédia de longe, mas preciso de rota de fuga. Nos grupos um monte de oração e frases feitas, pouca informação útil. E culpam a população por jogar lixos na rua, culpam os políticos por não olharem a população. Sério, eu não sei como as pessoas conseguem ficar presas nestes loopings mentais. Não cansam? Eu consigo até visualizar a cara do cidadão quando, no meio de um temporal, gente com água nas canelas e ele decide que o comentário mais inteligente é reclamar do lixo nas ruas. Se liga, palestrinha.
Enquanto eu estava no impasse entre dormir ou correr pelas estradas sem destino, recebo um boletim da prefeitura e defesa civil: Caiu uma barreira em Juquehy e abriram um ponto para receber as pessoas.
Em 2023, após a tragédia que matou 65 pessoas, foi muito difícil saber o que fazer, principalmente porque as informações chegavam desencontradas. Uma das barreiras caiu ao lado da minha casa, a informação correu, mas não impediu que centenas de pessoas tentassem sair da costa sul pela tamoios. Após um breve tempo, recebo outros boletins, mesmo com a chuva ainda forte, fui dormir. situação estava sobre controle. A chuva ainda tentou me intimidar ficando mais forte, não adiantou. Decepcionada, resolveu diminuir o ritmo. Novo alerta, barreira removida e situação sobre controle.
Entendo que os boletins são mais importantes do que os alertas de tempestade. Eu não sei como são disparados os boletins, se estão separados por regiões, ou sei lá quais outros critérios podem balizar o serviço, mas ajudou.
