A escolha do candidato, viés político e outras tantas questões, se dá por inclinação pessoal. A trajetória, valores aprendidos, grupo social são alguns dos fatores que determinam a posição política do indivíduo. Feita a escolha, o individuo busca informações que justifiquem e legitimizem sua escolha, procuram “munição intelectual” para defender sua escolha e seu grupo. Não há pensamento racional.
Com isto em mente, fica um pouco mais fácil compreender os extremos. Por mais que se apresente dados, fatos, o indivíduo permanecerá na mesma posição, porque aquela escolha política representa seus valores e sua crença, muito mais do que o candidato em si.
O filósofo americano Dan Willians entende que superestimamos a Fake News. Em pesquisas com pessoas de campos ideológicos distintos, constatou-se que respondiam as questões de uma maneira que favorecesse o seu ponto de vista. Numa segunda rodada de perguntas, com incentivo financeiro para respostas corretas, as respostas ficaram mais precisas e como menos carga ideológica. No fundo a pessoa entende a realidade, mas opta em recortá-la para atender seus anseios.
Os indivíduos não buscam a verdade nua e crua, mas sim argumentos para defender suas escolhas e atacar os adversários, aceitam informações falsas ou enviesadas não por falta de inteligência, mas porque essas informações cumprem a função social de integrá-las aos seus grupos.
O livro “Levítico” da Bíblia é usado em discurso conservador para condenar as relações homossexuais, mas os demais preceitos são ignorados. Religiosos comem porcos, misturam tecidos e fazem tatuagens. Não estou criticando se comem porcos ou não, mas questiono a incoerência.
A maior parte do conteúdo que polariza a sociedade são fatos reais reinterpretados ou fragmentados para atender as expectativas do grupo e reforçar o sentimento de pertencimento. Lembram das velhinhas nas portas dos quarteis felizes porque estavam sendo úteis? Iam salvar o futuro para os netos.
O discurso uníssono é importante para o individuo sentir-se parte do grupo . Presta atenção, quando acontece um fato ou escândalo com o representante do grupo. Num primeiro momento, a militância fica em silêncio aguardando os argumentos a serem usados. Assim que a mensagem é recebida (pode ser um post ou uma entrevista), as redes sociais são inundadas pela mesma mensagem vinda de diferentes partes, martelam até que se torne verdade. É um movimento orgânico, e muito provavelmente as pessoas o façam de forma inconsciente. É o medo de errar e destoar do coral.
Por fim, é importante não permitir que o indivíduo raciocine, as notícias e informações chegam sem parar, todas com muito apelo emocional, discursos contundentes, performances, gritaria e choradeira… Sejam verdadeiros ou não. Convencer que as pessoas são patrióticas e por isto devem apoiar qualquer ingerência americana ou ainda, pedir intervenção militar para defender a democracia é um feito. São situações antagônicas colocadas numa mesma frase e mesmo assim, não causa estranheza para quem fala.
E como se rompe? De dentro pra fora. Figuras emblemáticas começam a se desligar, disputas internas, escândalos e decepção. A figura central, antes adorada, torna-se um engodo. “Ela não me representa”, “Não representa meus valores”, “Fui enganado”.
Sim, lamento em dizer, mas você foi.
