Camila Aquino – Alcatrazes https://alcatrazes.com cultura e política Mon, 23 Mar 2026 16:08:37 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.9.4 https://alcatrazes.com/wp-content/uploads/2025/03/logo-Alcatrazes-branco-2-150x150.png Camila Aquino – Alcatrazes https://alcatrazes.com 32 32 A Sangria do Feminicídio: Controle, Misoginia e a Urgência de Mudança Cultural https://alcatrazes.com/a-sangria/ Mon, 23 Mar 2026 16:02:28 +0000 https://alcatrazes.com/?p=693

A luta pela igualdade de direitos das mulheres, travada ao longo de décadas, trouxe conquistas importantes que hoje são consideradas mínimas, mas fundamentais: o direito ao salário igual ao dos homens na mesma profissão, o direito ao voto, à livre expressão de opinião, ao trabalho fora de casa e ao divórcio. Apesar desses avanços, muitas mulheres ainda não conseguem exercer plenamente o direito mais básico que é escolher com quem se relacionar.

As mulheres ainda são vistas pelos homens como objetos que devem obediência absoluta, o que contribui para a persistência do feminicídio como uma forma de controle e punição.

O aumento registrado nos casos de feminicídio no Brasil — que atingiu recorde em anos recentes, com 1.568 vítimas em 2025, alta de cerca de 4,7% em relação ao ano anterior, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública — pode estar relacionado ao maior acesso das mulheres ao feminismo e à consciência de seus direitos. Ao reconhecerem relacionamentos tóxicos e abusivos, muitas decidem romper com eles. É exatamente nesse momento de tentativa de separação ou rompimento que o risco de feminicídio se intensifica, pois o agressor reage à perda de controle com violência letal. Assim, o crescimento dos números não reflete necessariamente mais violência em si, mas maior visibilidade e denúncia da violência já existente, somada à reação violenta de homens que não aceitam a autonomia feminina.

Além da legislação (como a Lei do Feminicídio) e da atuação efetiva do Estado na aplicação das leis, é essencial ir além: pais e mães precisam assumir responsabilidade na educação dos meninos. Ensinar apenas as meninas a se protegerem é insuficiente; é preciso educar os meninos para o respeito à igualdade e mantê-los afastados de movimentos masculinistas tóxicos, como o denominado **red pill**.

Esse movimento, de caráter misógino, prega a supremacia masculina e a subordinação das mulheres. Ele tem arregimentado principalmente adolescentes e jovens por meio das redes sociais, incluindo plataformas como o Discord  — originalmente usada por gamers para interação online, mas que tem servido de espaço para disseminar ódio às mulheres (misoginia). O que antes eram garotos introvertidos, com poucas conexões sociais ou afetivas não atendidas no ambiente familiar, encontram nesses grupos virtuais um senso de acolhimento e pertencimento. Nesse ambiente, são estimulados e desenvolvem uma visão tóxica em que culpam as mulheres por seus próprios fracassos, frustrações e rejeições, reforçando a misoginia como identidade.

O combate à violência de gênero está, portanto, intrinsecamente ligado à conexão familiar e à educação desde a infância. É no lar que as crianças aprendem a respeitar as diferenças entre meninos e meninas — ou, ao contrário, a diminuir e subjugar as mulheres. Atos simples no cotidiano de uma família fazem diferença:

– Solicitar que o menino participe da limpeza e dos afazeres domésticos, valorizando o trabalho majoritariamente realizado por meninas e mulheres;

– Mostrar que ninguém nasce sabendo faxinar — as meninas são ensinadas, e os meninos também podem e devem aprender;

– Envolver o filho nos cuidados com irmãos mais novos, para que entenda que cuidar de crianças não é “coisa de mulher”, mas responsabilidade compartilhada de pais e mães.

Portanto, para estancar a sangria da epidemia de feminicídio que assola o Brasil, são necessárias ações articuladas em múltiplas frentes:

– Regulamentação mais rigorosa da internet**, com responsabilização das plataformas pelo combate à disseminação de conteúdo de ódio contra mulheres;

– Enrijecimento das penas** para crimes contra a mulher, tornando-os inafiançáveis e com punição efetiva;

– Educação familiar com perspectiva feminista, que ensine desde cedo que meninos e meninas têm iguais direitos e deveres — na esfera social, econômica e política.

Somente com essas medidas combinadas — leis fortes, fiscalização digital responsável e mudança cultural profunda na criação dos filhos — poderemos avançar de fato rumo a uma sociedade em que as mulheres exerçam plenamente sua autonomia sem que sejam mortas por isso.

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Tráfico humano – uma realidade mais próxima do que se imagina https://alcatrazes.com/trafico-humano-uma-realidade-mais-proxima-do-que-se-imagina/ https://alcatrazes.com/trafico-humano-uma-realidade-mais-proxima-do-que-se-imagina/#respond Thu, 15 May 2025 18:08:38 +0000 https://alcatrazes.com/?p=273

Há 20 anos, o Protocolo Relativo à Prevenção, Repressão e Punição do Tráfico de Pessoas, em especial de mulheres e crianças – internacionalmente conhecido como Protocolo de Palermo –, foi ratificado pelo Brasil. Desde então, o país tem desenvolvido importantes ações interinstitucionais com o objetivo de oferecer assistência às vítimas, penalizar os autores e prevenir a sociedade sobre esse crime. No entanto, ainda é comum que a população reaja com incredulidade diante da informação de que, em pleno século XXI, pessoas continuem sendo traficadas para promover o enriquecimento de outros indivíduos.


Estudos da Organização Mundial do Trabalho (OMT) apontam que o tráfico humano movimenta cerca de 32 bilhões de dólares por ano. Dentre as vítimas, 79% são exploradas sexualmente, sendo as demais destinadas ao comércio de órgãos e à exploração em condições análogas à escravidão em latifúndios, na pecuária, em oficinas de costura e na construção civil.
Os grupos envolvidos no recrutamento de mulheres geralmente buscam vítimas em situação de maior vulnerabilidade, residentes em áreas periféricas com pouco acesso à informação. Os aliciadores — homens e mulheres de boa aparência, com poder aquisitivo elevado e nível educacional avançado — aproximam-se das vítimas muitas vezes por meio de parentes e amigos, oferecendo promessas de melhores condições de vida, trabalho no exterior, prostituição lucrativa ou até casamento com estrangeiros.

Muitas pessoas são capturadas por redes de tráfico nacional e internacional a partir dessas propostas enganosas. Algumas têm ciência dos riscos ou desconfiam das promessas; outras, por sua vez, sabem parcialmente o que as espera. Ainda assim, tais situações configuram, de forma inequívoca, o crime de tráfico de pessoas.
Após receberem bolsas para um curso de inglês no exterior, três brasileiras tornaram-se vítimas de um lucrativo mercado de tráfico humano que, segundo a ONU, afeta 2,5 milhões de pessoas anualmente. “Venderam-me um sonho que virou pesadelo”, afirma uma das brasileiras, ainda em recuperação de uma sequência de abusos vividos no submundo da capital inglesa. Seus passaportes, documentos e dinheiro foram confiscados na chegada. O contato com parentes era proibido, os passos eram monitorados por celular e câmeras escondidas, e ameaças de divulgação de vídeos íntimos eram constantes. As mulheres eram forçadas a atender entre 15 e 20 clientes por dia.

A internet revolucionou a forma de comunicação, negócios e relacionamentos, mas também se tornou uma ferramenta poderosa nas mãos de traficantes. Desde o aliciamento e controle das vítimas até a “divulgação” de serviços sexuais, o ambiente digital é hoje um canal estratégico dessas organizações criminosas.
Nesse contexto, os brasileiros Phelipe de Moura Ferreira e Luckas Viana dos Santos aceitaram uma proposta de trabalho recebida via Telegram e foram mantidos reféns por três meses em Mianmar, forçados a atuar em uma “fábrica de golpes cibernéticos”. Monitorados e punidos com agressões físicas, eram obrigados a se passar por modelos chinesas pedindo dinheiro a brasileiros. Com ajuda do Ministério das Relações Exteriores, do Itamaraty e da ONG Exodus Road, conseguiram fugir e retornar ao Brasil.
A tecnologia, no entanto, também ajudou o médico João Mallmann, de 28 anos, a desvendar sua verdadeira origem. Ao tentar obter a cidadania portuguesa, descobriu que seu registro de nascimento era falso e que fora vítima de uma adoção ilegal. Com vídeos no TikTok, mobilizou seguidores e recebeu ajuda para encontrar seus pais biológicos. Sua mãe, em situação extrema, fora convencida por profissionais de saúde a entregar o filho a um casal rico, sem qualquer processo legal. Hoje, João é ativista contra a adoção ilegal e denuncia redes criminosas que exploram a vulnerabilidade de mulheres em situação de pobreza.
Outro caso emblemático envolveu quatro jovens catarinenses, de 18 a 21 anos, contratadas por uma agência de modelos em São Paulo para trabalhar em um cruzeiro. Ao embarcarem, foram privadas de comunicação e submetidas a vigilância constante. Graças ao contato de uma das vítimas com a família, a Polícia Federal interceptou o navio em Angra dos Reis e prendeu o suspeito.
Em 2022, foi registrado o caso mais duradouro de exploração contemporânea no Brasil desde a criação da estrutura nacional de fiscalização do trabalho, em 1995. Uma senhora negra foi resgatada após passar 72 anos em situação de trabalho doméstico análogo à escravidão, servindo a três gerações de uma mesma família no Rio de Janeiro. Ainda criança, fora entregue pela mãe a uma família com melhores condições financeiras, sob a promessa de estudo e cuidado.
Nestes 20 anos desde a assinatura do Protocolo de Palermo, algumas constatações se consolidaram no Brasil: a principal finalidade do tráfico interno é a exploração laboral; a vulnerabilidade socioeconômica é fator determinante para o aliciamento de vítimas; e a internet transformou radicalmente o modus operandi desse crime.
Por isso, mais do que necessário, é imperativo debater o tráfico de pessoas, especialmente frente à vulnerabilidade do Litoral Norte, região atravessada por rotas conhecidas como o Porto de São Sebastião e a Rodovia Presidente Dutra. Uma política pública de enfrentamento eficaz deve articular diferentes setores, promovendo uma abordagem multidimensional e intersetorial, com participação das instituições públicas e movimentos sociais. As prefeituras das quatro cidades do Litoral Norte devem trabalhar de forma integrada na formulação de políticas públicas, capacitação de profissionais e na atuação da rede socioassistencial para prevenir e proteger as vítimas, além de responsabilizar os autores.
A Prefeitura de São Sebastião publicou, em 11 de outubro de 2024, o decreto que instituiu o Núcleo de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas (NETP), em parceria com o Ministério da Justiça e Segurança Pública. O Núcleo seria vinculado à Secretaria Nacional de Justiça, via Acordo de Cooperação Técnica com o ministério, então sob gestão do ministro Ricardo Lewandowski. Contudo, a proposta nunca foi efetivamente implementada, deixando uma lacuna importante desde a extinção do Comitê Interinstitucional de Combate ao Tráfico de Pessoas do Governo do Estado de São Paulo.
O desaparecimento de jovens e mulheres em todo o país continua a causar dor e incerteza para inúmeras famílias. O NETP tem por missão articular, estruturar e consolidar uma rede de referência para atendimento das vítimas, a partir dos serviços já existentes.
Diante da gravidade e da complexidade do tráfico de pessoas, é urgente que os entes federativos – União, estados e municípios – assumam sua responsabilidade constitucional, destinando recursos e pessoal qualificado para implementar políticas públicas eficazes de prevenção, repressão e acolhimento. É necessário, também, que a sociedade civil, as universidades, o sistema de justiça, os meios de comunicação e o setor privado se engajem de forma ativa e colaborativa nesse enfrentamento. Somente com ações coordenadas, intersetoriais e contínuas será possível romper o ciclo de aliciamento, exploração e impunidade que ainda persiste em pleno século XXI. O tempo da omissão acabou. É hora de agir.
Camila Aquino dos Santos

Fontes:
https://www.gov.br/mj/pt-br/assuntos/sua-protecao/trafico-de-pessoas/Dados%20e%20estatisticas/dados-e-estatisticas

https://www.gov.br/mj/pt-br/assuntos/sua-protecao/trafico-de-pessoas/publicacoes/artigos/cartilha_traficodepessoas_uma_abordadem_direitos_humanos.pdf

Forçadas a fazer ’15 a 20 programas por dia’, brasileiras são resgatadas de rede de exploração em Londres
https://www.bbc.com/portuguese/internacional-58364082

Jovens escravizados em Mianmar eram obrigados a dar golpes pela internet em brasileiros
https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2025/02/18/jovens-escravizados-em-mianmar-eram-obrigados-a-atrair-vitimas-no-brasil-em-golpe-na-internet-me-passava-por-modelo-mas-brasileiro-era-dificil-de-enganar.ghtml

‘Fui adotado ilegalmente e achei família biológica com a ajuda do TikTok’
https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2024/12/21/descobri-que-fui-adotado-ilegalmente-e-encontrei-meus-pais-com-o-tiktok.htm?cmpid=copiaecola

Quatro jovens são resgatadas de cruzeiro pela PF no RJ suspeitas de serem vítimas de exploração sexual https://jovempan.com.br/noticias/brasil/quatro-jovens-sao-resgatadas-de-cruzeiro-pela-pf-no-rj-suspeitas-de-serem-vitimas-de-exploracao-sexual.html
Mulher é resgatada após 72 anos de trabalho escravo doméstico no Rio
https://reporterbrasil.org.br/2022/05/mulher-e-resgatada-apos-72-anos-de-trabalho-escravo-domestico-no-rio/

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