Daniel Navarro – Alcatrazes https://alcatrazes.com cultura e política Sun, 25 Jan 2026 19:42:03 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.9.1 https://alcatrazes.com/wp-content/uploads/2025/03/logo-Alcatrazes-branco-2-150x150.png Daniel Navarro – Alcatrazes https://alcatrazes.com 32 32 Aniversário de São Paulo https://alcatrazes.com/aniversario-de-sao-paulo/ Sun, 25 Jan 2026 19:34:32 +0000 https://alcatrazes.com/?p=666

Feliz Aniversário São Paulo!

Imagem e texto de Daniel Navarro

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Legado cultural? https://alcatrazes.com/legado-cultural/ Thu, 08 Jan 2026 13:24:14 +0000 https://alcatrazes.com/?p=659

Em Boiçucanga, há um bloco chamado Vai-Quem-Quer.

Cinquenta anos de história.

Carrega em seu samba a palavra “legado” como se ela, sozinha, pudesse se sustentar no ar. Um bloco que se diz caiçara, comunitário, resistente. Um bloco que fala de resistência, mas tem esquecido como praticá-la.

Não sou daqui. Sou de São Paulo. Moro aqui há nove anos, tempo suficiente para entender que o litoral não foi apenas ocupado por casas de veraneio. Existe uma cultura que chega com mais força do que escuta. Em 2019, fui chamado como músico para cantar no bloco. Aceitei porque vi algo raro: um espaço que falava da terra, da pesca, da comida, da origem. Um bloco que parecia dizer: ainda estamos aqui. Cheguei de ouvidos abertos e boca fechada, falando quando solicitado, ouvindo e aprendendo sobre as coisas daqui com a comunidade local.

Quando cheguei, vi um bloco com ritmistas cheios de orgulho e que misturava referências, como todo carnaval faz, mas tinha foco. Sambas da região, marchinhas, músicas populares adaptadas, bateria na rua e, sim, sambas-enredo do Rio. Tudo cabia, porque nada ofuscava o essencial. O desfile tinha um propósito. Era o dia do grito do caiçara. Mas parece que o grito emudeceu.

Em 2023, no dia que deveria celebrar a cultura local, o bloco decidiu cantar 100% sambas do Rio de Janeiro. Não havia sambas da região. Nenhum refrão que falasse do chão, do mar, do povo dali. Em vez de “somos dessa terra, raiz desse chão”, ouvimos o eco distante lá da guanabara como se importasse “que ti ti ti é esse que vem da Sapucaí”. Não por alguns momentos, mas por todo o desfile.

Minha parte não foi cantada. Fui convidado, deixei de trabalhar e de ganhar dinheiro para me tornar um figurante em um carro de som junto com minha parceira Rô Cabelini, caiçara de Boiçucanga, batizada na Igreja da Praça da Mentira, onde ensaia o bloco, cantora respeitada no território e que se apresenta nos palcos da prefeitura, mas que também foi silenciada. Uma viagem não avisada. Um desrespeito não declarado. E, como sempre, normalizado.

O problema não é cantar samba do Rio. O problema é trocar identidade por um repertório fácil. É substituir memória por música pronta. É chamar de resistência aquilo que, na prática, é rendição.

A contradição é ainda mais cruel quando se sabe que um dos fundadores do bloco guarda um verdadeiro acervo de sambas e fandangos caiçaras. Músicas que nasceram ali e falam daquele povo e daquela terra. Um tesouro trancado enquanto o bloco que se diz guardião da cultura prefere importar um carnaval inteiro já pronto.

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Águas de Boiçucanga https://alcatrazes.com/aguas-de-boicucanga/ Mon, 15 Dec 2025 18:19:50 +0000 https://alcatrazes.com/?p=651

Águas de Boiçucanga

Por detrás da mata ciliar, chega o som do rio

Mais um sentido a me conectar ao alto mar

Das águas caudalosas do Rio Boiçucanga

Não para de passar por mim

Não para de saltar a pedra

Não para de nascer

Nem de encontrar o sal

Se te pareço tonto é porque o mundo gira

E meu pensamento vou mandar, junto com o rio

E quando com o sal eu encontrar, eu vou saltar

Vou correr na praia com a cachorrada

Correr com a matilha

Correr livre na areia

Correr de volta

Pra onde o rio encontra o sal

Se te pareço tonto é porque o mundo gira

Sigo caminho rumo ao alto mar, me despeço do rio

Aí o sol vai me evaporar, da superfície

Vou passear de nuvem carregada

Chover na terra

Chover na serra

E por detrás da mata ciliar

Soar o som do rio

Por detrás da mata ciliar, chega o som do rio

Das águas caudalosas do rio Boiçucanga, chega o som do rio

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