Luiz Carlos Correard Pereira – Alcatrazes https://alcatrazes.com cultura e política Thu, 26 Feb 2026 15:26:17 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.9.1 https://alcatrazes.com/wp-content/uploads/2025/03/logo-Alcatrazes-branco-2-150x150.png Luiz Carlos Correard Pereira – Alcatrazes https://alcatrazes.com 32 32 O Tomador de Conta https://alcatrazes.com/o-tomador-de-conta/ Thu, 26 Feb 2026 15:23:29 +0000 https://alcatrazes.com/?p=674

Aqui em São Sebá, sou um faz quase-tudo. Além de pescar, eu também faço
rango (e lavo a louça, sim), passo uma vassoura na área externa (tá bom, tá
bom, de vez em quando), espalho quirera e ponho bananas para os
passarinhos no quintal, cuido da frente da casa, do jardim e de minhas plantas
– meu caramanchão de maracujá está carregado (da primeira florada e logo
vou colher alguns para dar uma cor à minha vodca), além de fazer um monte
de outras coisas que um bom tomador de conta faz.

Sim, eu tomo conta de algumas coisas porque, se eu não fizer, ninguém faz (ou
ninguém faz porque eu faço, sei lá) – tipo apagar luzes em cômodos vazios,
desligar a TV quando ninguém está vendo, colocar água no filtro, esvaziar os
cestinhos de lixo, tirar o lixo, separá-lo e colocá-lo no lugar certo para a coleta
etc etc etc – ou seja, o mesmo que todos fazemos em nossas casas.
Mas não o Almeida. Ele não toma conta só da casa dele. Ele toma conta de
tudo de todo mundo. O que ele vê ou sabe tem que estar do jeito que ele acha
certo. Vive criticando a forma com que os vizinhos fazem qualquer coisa:

  • “Pô, eles deviam amarrar o saco de lixo assim e assado, não do jeito que
    está, pode vazar na rua”.
  • “Droga, o seu Zé devia apagar a luz da garagem, vai ficar acesa o dia
    inteiro…”
  • “Credo… o coronel devia podar melhor essas plantas… tá sobrando dos
    lados…”
  • “Nossa, o fulano ali precisa mandar cortar a grama…”
  • “Não sei como eles ficam dormindo até tarde desse jeito…”
  • Olha só, olha só… roupa pendurada na janela! Eles não tem vergonha…” E por aí vai. Mas, pior ainda, ele fica “tomando conta” do que você está
    fazendo quando está com ele! Tava eu pescando outro dia desses, lá chega o
    Almeida – justamente na hora que eu tinha acabado de enroscar minha isca
    numa pedra e estava tentando tirar com jeito para não arrebentar – e ele logo quis “me ensinar” a como tirar o enrosco, pois “do jeito que você está fazendo não vai conseguir”. Pegou a linha… puxa daqui, puxa dali e – claro – nada de soltar. Entrou na água, saiu da água, andou pra lá, andou pra cá, mas não tinha jeito. Tava preso mesmo. Ficou um tempão nisso… e eu ali com cara de tacho.
    Aí, eu tomei a decisão que tinha de ser tomada: puxei a linha até arrebentar.
    Faz parte do negócio pescaria, né? Pois o Almeida ainda reclamou comigo: “Pô, você apelou, eu já ia soltar essa linha. Agora você perdeu sua isca
    artificial!”
    Pensei comigo: “É, Almeida, eu perdi a p de um camarãozinho artificial. Que
    melda, não?”. E fui pra casa cuidar da vida. Da minha vida.
    E você, tem algum Almeida por perto?

Abril/2014

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Especulação Imobiliária e Ocupação https://alcatrazes.com/especulacao-imobiliaria-e-ocupacao/ https://alcatrazes.com/especulacao-imobiliaria-e-ocupacao/#respond Sun, 12 Oct 2025 21:13:59 +0000 https://alcatrazes.com/?p=384

Estávamos, como sempre, no Maré-Mansa. Seria umas 17 h, fim de uma bela tarde de
sol. A questão apareceu quando um casal e uma criança, parecendo estar saindo da
praia e indo para casa, caminhava ao longo da calçada que margeia a avenida:

“Pra você ver” – comentou um confrade, o Ciro – “Esse casal mora aqui do lado e,
para ir à praia, precisa andar pelo menos uns 500 m. Não existe mais acesso fácil a nenhuma praia aqui em São Sebastião.”.
Realmente, a especulação imobiliária é muito forte aqui – como parece ser em
qualquer lugar do país que apresente potencial turístico. Fizemos as contas: entre a primeira prainha do bairro São Francisco, à esquerda de nossa referência, e a praia do Arrastão, à direita, são de 800 a 900 m de calçada, com apenas um acesso à praia – um bequinho que vive cheio de lixo e que, para minha sorte, fica praticamente ao lado aqui de casa. E assim vai, em toda cidade se São Sebá. Não existe acesso fácil a praia nenhuma e muitos reclamam. O que impede o acesso? Casas.
Entre a avenida e a praia, existem casas… e que casas! Alto padrão, grandes terrenos, muros altos e nenhuma passagem para os pobres mortais chegarem à praia. Aliás, aqui pertinho, em Ilhabela, é pior, pois não há acesso nenhum ao mar onde não existe praia com seus becos. Todos os caminhos que levam à costa, através da mata ou das pedras, estão fechados por muros e cercas (lembrei aqui daquele senador que é “dono” da fechadíssima Ilha das Cabras, dê uma pesquisada no Goooooogle e você vai entender do que falo).

“É uma encrenca, isso”, continuou o Ciro. “Mas… MAS… se você fosse o proprietário de uma casa desse padrão, nesses mesmos locais, você faria diferente? Faria uma passagem lateral no seu terreno para facilitar a chegada de pessoas à praia em frente à sua casa? Sei não…”. Ninguém contestou.

“E mais, tem algo que pode ser muito mais complicado que a especulação
imobiliária: a ocupação de encostas da mata atlântica, por suas consequências em diversos setores”.
Curioso, fui me informar. É assustador mesmo. Fotos aéreas mostram o crescimento desenfreado de ocupações do litoral norte de SP. O crescimento da região e a construção das casas e hotéis de luxo sempre atraiu mão de obra, mas hoje, além disso, a chegada de novos moradores ocorre pelos grandes projetos, prováveis fontes de emprego: a expansão do porto e o contorno rodoviário de São Sebastião, a ampliação da Rodovia dos Tamoios e a unidade de tratamento de gás de Caraguatatuba. São empregos temporários, mas quando o trabalho acaba, os trabalhadores continuam na cidade e, sem moradia, ocupam desordenadamente as encostas. Como acontece em qualquer lugar do Brasil nessas condições, é um sério problema para o município.
Aí, eu entendi o ponto de vista de meu amigo Ciro. O que é “bom” ou “ruim” – ou – pior – o que é “justo” ou “injusto” ou ainda “certo” ou “errado” é totalmente relativo, dependendo apenas de qual “lado da rua” você olha. Que a especulação imobiliária precisa ser contida, não tenho dúvidas; que a ocupação das encostas é realmente uma séria questão social (entre tantas…) também.
Então… fica a questão quase óbvia: com qual desses problemas vocês acham que qualquer prefeitura prefere lidar?.
Março 2014

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Acasos e coincidências https://alcatrazes.com/acasos-e-coincidencias/ https://alcatrazes.com/acasos-e-coincidencias/#respond Thu, 28 Aug 2025 20:24:18 +0000 https://alcatrazes.com/?p=386


Aconteceu comigo. Pela Rio-Santos, eu voltava de Parati para São Sebastião numa bela manhã de sol. Logo após a divisa RJ-SP e a descida de Picinguaba, no início da longa reta de Ubatumirim, não se via nenhum veículo em qualquer direção. “Eu e o mundo sozinho”, sorri. Acelerei um pouco mais e abri as janelas do carro para sentir o vento na minha cara.

Mas eis que logo vejo, mais à frente, um carro parado no acostamento. Modelo igual ao meu – e de mesma cor. Em seguida, vejo também outro carro vindo em minha direção. Também era igual ao meu. E de mesma cor.
Aí, acontece o acaso (ou coincidência) incrível: num exato instante, numa estrada vazia, três carros iguais se encontram no mesmo ponto – um em cada direção, outro parado. Três carros iguais alinhados no mesmo trecho, no mesmo instante, em sentidos contrários, em uma estrada completamente vazia! É muita coincidência, não é? Não sei se os outros dois motoristas prestaram atenção no fato, mas eu achei um acaso sensacional. Mas… apenas isso, um acaso – sem causas ou consequências.
Já uma conhecida de caminhadas praianas acha que o encontro dela com o marido estava “escrito nas estrelas”, pois “não pode ser acaso eu ter conhecido o amor de minha vida da maneira que foi” (não, não sei “a maneira que foi”). Ainda me falou que “nada nem ninguém acontece na sua vida por acaso. Está tudo desenhado no destino da cada um. Não foi o acaso, certa vez, que me fez perder um ônibus que se acidentou e onde muita gente perdeu a vida. Não era a minha hora”.
Outra conhecida, caixa na peixaria da Associação de Pescadores daqui, também não crê em acasos. Segundo ela, “não foi coincidência eu estar passeando em São Paulo,
na casa da minha mãe, justamente quando ela caiu doente e precisou de mim”.
Evidentemente, existem vários relatos similares, com maior ou menor gravidade nos acontecimentos. Então, muita gente acha que “acasos e coincidências” não existem.
Tudo – mas tudo mesmo! – estaria interligado de alguma maneira “cósmica” no universo (pesquise “acaso não existe” no Gooooooogle e você terá uma ideia). Mas, para mim, casos como o que iniciei esta crônica são simplesmente coincidências. Ou acasos, mesmo.
Meu amigo João, o filósofo, alerta: “a frase feita ´o acaso não existe` traz embutida em si algumas ideias que, se pararmos para pensar um pouco, não terão o respaldo da maioria das pessoas, mesmo as religiosas. Essa frase pressupõe que todos nós temos o destino traçado e definido, o que é meio complicado… Determinismo é demais para as mentes livres. Como fica o tal de livre-arbítrio? Nós podemos, sim, mudar
completamente o rumo da nossa existência, dependendo das nossas escolhas na vida”. Sábio, o João.
Você também deve ter suas histórias, não? E aí, o que acha do acaso?

Julho 2014

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Sotaques https://alcatrazes.com/sotaques/ https://alcatrazes.com/sotaques/#respond Wed, 06 Aug 2025 16:48:27 +0000 https://alcatrazes.com/?p=390

Estávamos na esquina da rua aqui de casa – ao lado do boteco aqui localizado
(onde muuuuito de vez em quando eu vou) – eu e alguns amigos de copo e de
linha, falando de peixes e tals. De repente, passa um sujeito e pergunta a
todos, de um modo geral – já que o assunto era peixe – onde poderia alugar
um barco para uma pescaria que estava querendo fazer. Claro, não faltou
indicação e o camarada logo se enturmou na conversa.

Papo vai, papo vem, o Japonês (frequentador assíduo do boteco) pergunta: – “O Sr deve ser de São Paulo, capital, não?”.
Ante a concordância do cara, o Japonês completa: – “Adivinhei pelo sotaque.
Paulistano coloca sempre um “i” quando a palavra termina em “enta”, é
seteinta, oiteinta… veinto…, além do “meu”, claro, que colocam em tudo. Não é
isso, meu?”. Risos.
Aí, o paulistano também brincou: “E os cariocas? Além do “R” todo rasgado,
para eles não existe o “S”, trocam tudo por “X” com som de “ISH” – na maioria
das vezes, mas também usam o “J”. É maish, menosh, bashtante, ishquina,
ishquerda, tudo o que tem “s” vira “ish”. TV por assinatura? Shcai! Acendedor
de cigarros? Ishqueiro! Nos plurais, se a palavra tem mesmo um “x”, então, é
uma feshta… caixash, peixesh, caximbosh.. Ou então é lejma, sofijma, crijma…
Não é isso mejmo?” Como não tinha nenhum carioca presente (fora eu, que fui
carioca-do-brejo por muito tempo e nem toquei nesse questão, né?), todos
rimos muito.
O paulistano, já enturmado (nessa altura já estávamos numa mesa do Maré
Mansa bebendo uma gelada), estava à vontade. Falamos dos mineiros (“uai,
sô!, trem bão, sô!”), dos gaúchos (“Bá, tchê, que barbaridade!”), dos
nórdestinos (“Vixe, meu padim ciço, ó xente…”), dos baianos (“que isso, meu
Rei, depois a gente procura um trabalho…”) e por aí foi. Mas, logicamente, não
falamos dos locais.
Bem… o sotaque daqui de São Sebá é praticamente o mesmo do paulista do
Vale do Paraíba (talvez pela proximidade), com o “r” forte da forma considerada
“caipira” em qualquer cidade do Estado do Rio. O “caipirês” de toda essa região
foi imortalizado pelo taubateano Amácio Mazzaropi em diversos filmes
(firmes?), com seu Jeca Tatu exagerado.
Interessante é que aqui também se utiliza, no popular, a inversão de letras que
eu só tinha ouvido em Pinda e Taubaté: “treminar” por “terminar” e “estrovar”
por “estorvar” (lembro de um de meus tios açougueiros pedir a um dos filhos:
“Tira daqui esses osso que tão me estrovando pra que eu tremine esse serviço
de cortá as carne!”). Acrescente a isso a forma popular de não falar o “LH” em
algumas palavras (trabaio, aio, fôia… o que é muito comum Brasil afora) e
temos um retrato interessante da coisa. Sabem o que é um “cuei caoi”? Não? E
“juei junto”?


Outubro 2013

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