Thalita Ateyeh – Alcatrazes https://alcatrazes.com cultura e política Mon, 31 Aug 2026 22:40:29 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.1 https://alcatrazes.com/wp-content/uploads/2025/03/logo-Alcatrazes-branco-2-150x150.png Thalita Ateyeh – Alcatrazes https://alcatrazes.com 32 32 Gênero e eleições https://alcatrazes.com/genero-e-eleicoes/ Mon, 31 Aug 2026 22:39:46 +0000 https://alcatrazes.com/?p=819

Duas em cada três ocorrências não chegam ao conhecimento da justiça, mais da metade das vítimas de feminicídio não possuíam boletim de ocorrência contra o agressor. As razões são inúmeras, medo de represália, dependência financeira, filhos, exposição e julgamento social.

Apesar do quadro assustador, há uma tímida reação, o primeiro semestre de 2026 registrou recorde de solicitação de medidas protetivas, só na nossa região do Vale do Paraíba foram registradas mais de 5.000 ocorrências contra os direitos das mulheres.

Mesmo com 20 anos da lei Maria da Penha, da subnotificação e desconhecimento por grande parte das mulheres, a lei continua pautando o debate na Câmara Federal, mas em um movimento contrário, entre 2025 e 2026 foram apresentadas cerca de 89 propostas de alteração na Lei Maria da Penha, ora flexibilizando, ora atenuando. Uma das propostas mais emblemáticas veio da deputada Julia Zanatta (PL-SC) que pretendia punir severamente denúncias caluniosas. Olha só, a mesma proposta de um dos candidatos a deputado federal pelo litoral norte. Nem criatividade tem.

Uma das explicações para tanta resistência aos direitos das mulheres é a expressiva quantidade de deputados denunciados por violência de gênero ou com medidas protetivas, além de uma parcela da população que simplesmente odeia mulheres.  

Em um momento de subnotificação, onde a vítima tem inúmeras razões para não denunciar, alguns deputados e candidatos acham de bom tom criar mais um obstáculo para as denúncias. Nem todas as situações de violência produzem provas materiais e em centenas de casos é a palavra de um contra a do outro. A mulher precisa morrer para ter razão.

A reação veio pelo STF, ampliaram o alcance da lei, agora qualquer caso de violência de gênero, mesmo fora do ambiente doméstico está passível de punição. Dá para ouvir de longe o chororô do Jurandir.

Legislar em causa própria já é péssimo, imagine anunciar em campanha que fará isto. Os argumentos são os mesmos do período paleolítico: “A mulher é louca”, “a mulher é apaixonada por mim”, “ela inventou porque quer meu dinheiro” e assim vai. O argumento mais recente que eu ouvi e talvez mais original foi que “Ela se agredia e dizia que era eu”.  

Dá até para entender o porquê alguns começarem a reclamar do voto feminino, podem reclamar, a gente vai de passinho em passinho, não tem problema demorar, só não podemos retroceder. Vote em quem te respeita.

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O Brasil dos brasileiros https://alcatrazes.com/o-brasil-dos-brasileiros/ Mon, 24 Aug 2026 12:23:16 +0000 https://alcatrazes.com/?p=809

Tem circulado um mapa da América Latina todo em azul, apenas o Brasil e Uruguai em vermelho, sempre com frases de efeitos de ambos os lados. Eleições são um período curioso.

Para além do óbvio, o passado desaparece, surgem inimigos imaginários e problemas complexos encontram soluções rápidas e fáceis.

Tanta faixa, santinho, declarações, debates acalorados mascaram problemas reais, como a influência estrangeira em território nacional, nada contra os imigrantes, falo do espírito colonialista de algumas nações. Há quem chame de amizade.

Há método: desacreditar as instituições democráticas, grupos políticos e agentes instigando a população através de matérias tendenciosas, sanções comerciais, colapso e convulsão social para finalmente tomar o poder. Na década de 60 a alternativa foi usar os militares de cada país, hoje a roupagem é mais adequada ao nosso tempo, chegam ao poder através das urnas. Há quem chame de desenvolvimento.

Argentina e agora Colômbia e Peru estão em um brutal processo de neocolonização, a ilusão é achar que pelas urnas a humilhação e sofrimento serão menores. Não serão. A Argentina passa fome, serviços essenciais foram privatizados e uma das sugestões do governo é vender parte de seu território a estrangeiros. Trump, sempre que pode, faz declarações jocosas sobre a Argentina. Nem a gratidão estadunidense os argentinos têm. Matérias e jornalistas persistem em elogiar a economia citando, o controle da inflação, só não explicam que, sem dinheiro, cai a demanda e os preços. A fome como instrumento de controlar a economia. Há quem chame de liberdade.

Se por algum motivo houver resistência da população, os colonizadores perdem o pudor e submetem o país e a população a mais absoluta humilhação com silencio e aquiescência dos demais países. Começam as sanções, sem alternativa comercial, o país empobrece e se degrada, pessoas passam fome, ao ponto de aceitarem qualquer coisa. Curiosamente, a Venezuela não ocupa mais o mesmo espaço nos jornais, de repente, a falta de eleições não é mais um problema. A Venezuela é governada pelo sistema home office e sua reserva de 31 toneladas de ouro foi semana retrasada transferida para os EUA. Pronto. EUA ganha um pouco mais de autonomia energética enquanto engorda os cofres. Há quem chame de democracia.

E nós? O Brasil está melhor que nossos vizinhos. Em 2005 Lula quitou a dívida com o FMI, e em 2006 quitamos nossa dívida com o Clube de Paris (tornamos membro credor permanente em 2016), encerrando o monitoramento estrangeiro. Ampliamos nosso mercado internacional e os EUA deixaram de ser nosso maior parceiro comercial, antes, estávamos à mercê das variações internas do país. Somos também cofundadores do BRICS, fortalecendo outros meios de comércio e diminuindo a dependência do dólar e suas flutuações (naturais e artificiais). Há quem chame de colapso financeiro.

O Brasil é autossuficiente em água, alimento e reserva energética, possui 172 toneladas em ouro e 320 bilhões em reserva. O pré-sal, tão inalcançável, começou a ser extraído após 2 anos de descoberto, com tecnologia desenvolvida pela PETROBRAS, a mesma empresa referência em tecnologia para o mundo. Ah, produzimos aviões também, mas há quem chame de país de ignorantes.

O Brasil, como os demais países, tem sofrido ataques do governo estadunidense para minar sua autonomia, seja abertamente, através de tarifas, aliciamento de jornalistas e campanhas difamatórias das instituições democráticas ou por procuração, através dos nossos vizinhos, já devidamente adestrados. É muito importante lembrar que os EUA são o maior acionista do FMI, e já foram nosso maior parceiro comercial. Se não tivéssemos quitado nossa dívida com o FMI, e ampliando nosso mercado internacional, seria impossível resistir ao saque estadunidense. Há quem chame de “ingressar no escudo das américas”

Trump quer colocar a sua casa em ordem e não vê problema em obrigar o planeta a pagar a conta. Não vê problema em humilhar signatários de outros países, jogar umas bombas por aí ou simplesmente extorquir. mas há quem diga que é “fazer a América grande novamente”,

Eu ainda prefiro o “Brasil é dos brasileiros”

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O que a Holanda e El Salvador têm em comum? https://alcatrazes.com/o-que-a-holanda-e-el-salvador-tem-em-comum/ Thu, 30 Jul 2026 15:17:26 +0000 https://alcatrazes.com/?p=802

Ambos oferecem serviço de carceragem para outros países. Apesar de chegarem ao mesmo resultado, percorreram caminhos muito diferentes.

A Holanda tirou a vontade de cometer crimes através do “bem-estar social”. Faz parte dos países escandinavos, atualmente são a grande referência de como o capitalismo pode dar certo. O país alinhou diversos programas sociais com valores liberais – se brasileiro fica nervoso com bolsa família, imagine conhecer os programas holandeses. Foi um dos primeiros países a permitir o consumo de maconha e profissionalizou a prostituição. É um país liberal no sentido mais amplo da palavra. Liberal nos hábitos e na economia.

O país foi construído priorizando os direitos individuais, respeitando os direitos humanos, com diversos órgãos reguladores bem atuantes. Mas olha que curioso, as mesmas organizações sociais, burocratas de carreira e especialistas que fiscalizam e garantem a democracia, também limitam a democracia. Não é o que a maioria deseja, mas sim o que a maioria deseja dentro de determinadas regras. Só consegue ser um país liberal e democrático, porque cerceia a democracia.

Yascha Mounk no seu livro “O povo contra a democracia” entende que países assim configuram como direitos sem democracia. Para existir a democracia, os direitos precisam ser restritos o que deixa pouca margem para os legisladores. Uma série de questões que discutimos aqui no Brasil, não fazem sentido para um europeu, uma vez que os direitos humanos e autonomia individual são inalienáveis.

Quando a qualidade de vida subiu, as cadeias esvaziaram, o país focou em reabilitação, penas alternativas ou multa. Deu certo, mas com alguns problemas. O sistema prisional era responsável por centenas de milhares de empregos, se as cadeias continuassem sendo fechadas, haveria um impacto significativo na economia. Solução? O país oferece estrutura prisional para criminosos de delitos leves de outros países. Bélgica e Noruega são dois dos principais países que enviam presos para a Holanda. O custo é cerca de 164 euros por preso/dia.

É o caminho exatamente oposto do que foi feito em El Salvador.

De 1979 a 1992 a guerra civil provou uma enorme diáspora e muitos seguiram para os EUA. Os exilados chegaram na década de 80 em uma Los Angeles hostil e violenta sem documentos, sem falar inglês e com bagagem cultural muito distinta.

Uma população relativamente grande, sem documentos, falando outro idioma e sem proteção policial, tornaram-se presas fáceis para as gangues. A solução foi criar sua própria gangue, a Mara Salvatrucha (mara = gangue, salva = salva, trucha = malandro de rua) para oferecer proteção aos imigrantes contra as gangues locais. Tornaram-se uma das gangues mais violentas com ramificações em El Salvador, EUA, Mexico, Honduras e Guatemala.

Estas ramificações começam a aparecer a partir de 1996, quando o governo americano, para tentar controlar o crime, endurece as leis de imigração e inicia a deportação de milhares de jovens aos seus países de origem. O governo americano não teve o trabalho de notificar o histórico de periculosidade dos indivíduos.  E novamente, um grupo de jovens são enviados a diversos países onde não conhecem seus hábitos ou idioma, já que muitos só falavam inglês.

As gangues encontraram o terreno perfeito: países devastados por guerras, polícia e sistema judicial despreparado e corrupto, com milhares de jovens desempregados e marginalizados prontos para serem cooptados. O resultado foi sentido nas décadas futuras. Mara SalvaTrucha e M18 (um ramo dissidente) tornaram-se gangues extremamente violentas, especializadas em tráfico de armas, pessoas, órgãos e drogas e em 2015, El Salvador foi considerado um dos países mais violentos do mundo, com uma taxa de homicídio de 106/1000 habitantes.

Nayib Bukele chega à presidência de El Salvador em 2019, rompendo 3 décadas de bipartidarismo como a bandeira de acabar com a violência. Nos dois primeiros anos, suas ações são cerceadas pelo legislativo e judiciário, impedindo-o de promover as mudanças sociais. Em 2022, acontece o ponto de virada, as duas gangues promovem um verdadeiro massacre, assassinando 87 civis escolhidos aleatoriamente em apenas um fim de semana. Diante disto, o legislativo aprovou o Regime de Exceção, dando poderes ao estado e suprindo temporariamente alguns dos direitos individuais.

Prenderam mais de 50.000 pessoas só nos primeiros 5 meses, colapsando o sistema prisional. As rações dos presos foram diminuídas e, em tempo recorde, construíram a CECOT (Centro de Confinamento do Terrorismo), uma cadeia exclusiva para integrantes de gangues.

O CECOT tornou-se referência (para alguns, para outros é tortura) no trato de criminosos de alta periculosidade, com um sistema de segurança absurdo, os presos são vigiados 24 hrs, sem visitas (nem de advogados), proibidos de conversar ou possuir objetos pessoais, dormem na estrutura dos beliches, sem colchão, cobertor, lençol ou travesseiro. Os membros das gangues são postos juntos, são dezenas de celas com milhares de pessoas no mais absoluto silêncio.

Bukele ganhou o mundo e aprovação maciça da população, os 53,1% votos da primeira eleição saltaram para 84,65% na segunda. Bukele fez um pouco mais do que ganhar a eleição, ele também garantiu 54 das 60 cadeiras do legislativo. Com maioria absoluta, organizou os deputados para destituírem os juízes da Suprema Corte minutos após a posse. Agora ele controla o executivo, o legislativo e o judiciário.

Voltando ao livro de Yascha Mounk, El Salvador torna-se uma democracia sem direitos. A vontade popular foi atendida, as custas da independência dos poderes, um dos pilares da democracia. Para fazerem valer a democracia, precisaram cooptar as instituições democráticas.

Não demorou muito para que ONGs, organizações e juristas internacionais começassem a denunciar as condições da cadeia e o permanente estado de exceção. Bukele se posicionou como um guardião dos direitos humanos, mas para todos os humanos. Onde estavam as ONGs quando as gangues aterrorizavam a população? Os presos de El Salvador são alimentados, tem acesso à saúde e higiene pessoal e só comerão carne, depois que todos os salvadorenhos tenham carne em sua mesa. Errado ele não está.

Enquanto a Holanda é considerada um país onde o capitalismo deu certo, El Salvador representa a pior faceta do capitalismo. A economia de El Salvador não é das melhores, a maior contribuição para o PIB são as remessas de dinheiro enviado por imigrantes, que corresponde a 24%. Há uma reação muito tímida no turismo e comércio, mas nada expressivo. Para incrementar a economia, Bukele tenta abrir uma nova frente de negócios ao oferecer serviço carcerário para outros países. Atualmente o CECOT abriga 20.000 presos, mas tem capacidade para 40.000 presos e possibilidade de expandir para 80.000 vagas. Bukele ofereceu o serviço à Donald Trump para abrigar seus prisioneiros de alta periculosidade o que renderia uma receita financeira substancial. Atualmente um preso, nos EUA, tem um gasto anual que varia de 40.000 a 80.000, dependendo do estado, com a terceirização, um preso custará ao governo americano 20.000 dólares. Um valor inferior ao oferecido pelos holandeses.

Há forte reação internacional, uma cadeia fechada para visitas de entidades e ONGs, presos sem contato com mundo exterior e sediada em um país controlado por uma única pessoa pode servir para qualquer coisa.

A Holanda não ficou mergulhada em uma guerra civil por tantos anos, e o mais importante, a população se identifica como um grupo, um país. Havia um caminho já trilhado que serviria de referência.

El salvador, como a maioria dos países colonizados, era uma extensão agrícola e extrativista da Europa. Enormes plantações para exportação, indígenas que lutam até hoje pela sobrevivência e mão de obra escravizada. Não havia interesse em fortalecer as instituições, fomentar a educação ou saúde. O país nunca teve a oportunidade de se formar como unidade. Jesse de Souza trata no seu livro “A elite do atraso” os impactos da colonização e como os problemas perduram até os dias atuais.

A população de El Salvador aprova seu governo, com taxa que varia entre 80 e 90%, enquanto a Holanda antecipou suas eleições em 2025, após o colapso sobre políticas de imigração, e mesmo assim, a aprovação atual do governo é de 22%.

Eu consigo prever o que acontecerá se a aprovação na Holanda continuar baixa, o mistério está no que acontecerá se a aprovação de Bukele despencar. As mesmas instituições que, em algum momento, travaram o pleno exercício da democracia seriam fundamentais para garantir a democracia.

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Entrevista com Dilmara Freire https://alcatrazes.com/entrevista-com-dilmara-freire/ Tue, 14 Jul 2026 16:39:52 +0000 https://alcatrazes.com/?p=799

Algumas semanas atrás, após o texto sobre os idosos, acabei conhecendo a Mara e ela me contou um pouco sobre seu trabalho em Cunha, acabou saindo uma entrevista sobre o assunto.

Me fale do seu trabalho em Cunha. Há outros lugares que você atua?

Atualmente desenvolvo meu trabalho na área da cultura do envelhecimento, com foco em estimulação cognitiva, longevidade ativa e cuidado integral da pessoa idosa. Em Cunha, atuo principalmente com projetos voltados à promoção de qualidade de vida, prevenção do declínio cognitivo e fortalecimento de vínculos sociais e afetivos.

Além disso, também estou estruturando o Projeto Tempo de Si, que amplia essa atuação para uma abordagem mais integrativa da longevidade, conectando saúde, ambiente, cultura e pertencimento. É um projeto que vem ganhando parcerias e diálogos com outras instituições e profissionais em diferentes regiões.

Como você vê a situação do idoso atualmente? Algumas ações mais simples que podem fazer a diferença?

Vejo que vivemos um momento importante de transição. Por um lado, temos o aumento da longevidade, o que é uma conquista da sociedade. Por outro, ainda existe um grande desafio em relação à qualidade desse envelhecer.

Muitos idosos vivem situações de isolamento, sobrecarga emocional, perda de autonomia e, principalmente, falta de pertencimento social.

Ações simples podem fazer grande diferença: escuta qualificada, convivência social ativa, atividades cognitivas, estímulo à autonomia, além de pequenas mudanças na rotina que tragam mais sentido ao dia a dia, como conversas significativas, estímulos culturais e participação em grupos.

Quais os maiores problemas que o idoso enfrenta no Brasil?

Entre os principais desafios estão o isolamento social, o idadismo (preconceito etário), a fragilidade das redes de cuidado, além da sobrecarga dos serviços de saúde e assistência.

Também há questões relacionadas à saúde mental, como depressão e ansiedade, muitas vezes não diagnosticadas, e a dificuldade de acesso a atividades que promovam autonomia e qualidade de vida de forma contínua.

Mulheres sozinhas são o grupo que mais cresce entre os idosos. É necessária alguma atenção especial ou não há interferência do gênero na questão?

Sim, há uma interferência importante do gênero no processo de envelhecimento. As mulheres vivem mais, mas muitas vezes envelhecem em condições de maior vulnerabilidade social, econômica e emocional.

Muitas chegam à velhice sozinhas, após trajetórias marcadas por sobrecarga de cuidado ao longo da vida. Por isso, é fundamental olhar com atenção para esse grupo, considerando não apenas aspectos biológicos, mas também sociais, afetivos e culturais.

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As razões das nossas escolhas https://alcatrazes.com/as-razoes-das-nossas-escolhas/ Wed, 08 Jul 2026 21:35:00 +0000 https://alcatrazes.com/?p=790

A escolha do candidato, viés político e outras tantas questões, se dá por inclinação pessoal. A trajetória, valores aprendidos, grupo social são alguns dos fatores que determinam a posição política do indivíduo. Feita a escolha, o individuo busca informações que justifiquem e legitimizem sua escolha, procuram “munição intelectual” para defender sua escolha e seu grupo. Não há pensamento racional.

Com isto em mente, fica um pouco mais fácil compreender os extremos. Por mais que se apresente dados, fatos, o indivíduo permanecerá na mesma posição, porque aquela escolha política representa seus valores e sua crença, muito mais do que o candidato em si.

O filósofo americano Dan Willians entende que superestimamos a Fake News. Em pesquisas com pessoas de campos ideológicos distintos, constatou-se que respondiam as questões de uma maneira que favorecesse o seu ponto de vista. Numa segunda rodada de perguntas, com incentivo financeiro para respostas corretas, as respostas ficaram mais precisas e como menos carga ideológica. No fundo a pessoa entende a realidade, mas opta em recortá-la para atender seus anseios.

 Os indivíduos não buscam a verdade nua e crua, mas sim argumentos para defender suas escolhas e atacar os adversários, aceitam informações falsas ou enviesadas não por falta de inteligência, mas porque essas informações cumprem a função social de integrá-las aos seus grupos.

O livro “Levítico” da Bíblia é usado em discurso conservador para condenar as relações homossexuais, mas os demais preceitos são ignorados. Religiosos comem porcos, misturam tecidos e fazem tatuagens. Não estou criticando se comem porcos ou não, mas questiono a incoerência.

A maior parte do conteúdo que polariza a sociedade são fatos reais reinterpretados ou fragmentados para atender as expectativas do grupo e reforçar o sentimento de pertencimento. Lembram das velhinhas nas portas dos quarteis felizes porque estavam sendo úteis? Iam salvar o futuro para os netos.

O discurso uníssono é importante para o individuo sentir-se parte do grupo . Presta atenção, quando acontece um fato ou escândalo com o representante do grupo. Num primeiro momento, a militância fica em silêncio aguardando os argumentos a serem usados. Assim que a mensagem é recebida (pode ser um post ou uma entrevista), as redes sociais são inundadas pela mesma mensagem vinda de diferentes partes, martelam até que se torne verdade. É um movimento orgânico, e muito provavelmente as pessoas o façam de forma inconsciente. É o medo de errar e destoar do coral.

Por fim, é importante não permitir que o indivíduo raciocine, as notícias e informações chegam sem parar, todas com muito apelo emocional, discursos contundentes, performances, gritaria e choradeira… Sejam verdadeiros ou não. Convencer que as pessoas são patrióticas e por isto devem apoiar qualquer ingerência americana ou ainda, pedir intervenção militar para defender a democracia é um feito. São situações antagônicas colocadas numa mesma frase e mesmo assim, não causa estranheza para quem fala.  

E como se rompe? De dentro pra fora. Figuras emblemáticas começam a se desligar, disputas internas, escândalos e decepção. A figura central, antes adorada, torna-se um engodo. “Ela não me representa”, “Não representa meus valores”, “Fui enganado”.

Sim, lamento em dizer, mas você foi.

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IML – Litoral Norte https://alcatrazes.com/iml-litoral-norte/ Mon, 06 Jul 2026 19:07:45 +0000 https://alcatrazes.com/?p=786

No litoral norte, o Instituto Médico Legal (IML) fica sediado em Caraguatatuba e atende São Sebastião, Ilhabela, Caraguatatuba e Ubatuba. Só para configurar, o IML é responsável pelos exames de corpo delito (agressão, violência doméstica, acidentes), avaliação de crimes sexuais (recolhimento de material genético, exame de escoriações),

exame de embriaguez, sanidade mental (avaliação da capacidade do indivíduo responder seus atos), perícia de idade biológica, toxicologia, autópsia, exumação, identificação de ossadas e a liberação de corpos se dá após passar pelo IML.

A recomendação da ABC (Associação Brasileira de Criminalística) é que exista 1 perímetro para cada 5.000 habitantes, sendo que 70% (SETENTA POR CENTO) dos atendimentos são perícias em pessoas vivas. Guarda esta informação, já volto nela.

Atualmente, o IML não está atendendo a região apropriadamente. Além da dificuldade geográfica (são mais de 500 quilômetros servidos por uma única rodovia), a unidade conta com pouco efetivo o que causa situações bem bizarras. Não faz muito tempo, um corpo ficou 12 horas na rodovia perto da praia preta, mês passado, em um acidente fatal, precisaram esperar 8 horas para a chegada do IML. Lembra dos 70% dos atendimentos serem em pessoas vivas? Pois bem, vítimas de estupro (incluindo crianças) ou violência doméstica não podem tomar banho até recolher os vestígios. Imagine sair de Boracéia e percorrer quase 98 quilômetros para recolher o material genético ou da praia de Castelhanos, na verdade, não precisa ser tão longe, saindo do centro de São Sebastião já é um horror.

A Polícia Científica é responsabilidade do Governo do Estado e na sessão de 23 de junho, o vereador Renato de São Sebastião apresentou um requerimento (150/2026) solicitando uma conversa institucional entre a prefeitura, governo e secretaria de segurança do estado para a viabilização de uma unidade do IML em São Sebastião. Não é a primeira vez que o tema é abordado pelos vereadores, já que é uma reivindicação antiga dos moradores. Ver um parente seu, falecido, por 10 horas na estrada não deve ser fácil. Vamos acompanhar o desenrolar.

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Suspensão da pesquisa AtlasIntel https://alcatrazes.com/suspensao-da-pesquisa-atlasintel/ Tue, 09 Jun 2026 18:03:24 +0000 https://alcatrazes.com/?p=780

O presidente do TSE, Kassio Nunes, suspendeu a divulgação da pesquisa realizada pela AtlasIntel, a decisão será julgada hoje em plenário pelo Ministério Público Eleitoral.

A reclamação era por mostrar a gravação do diálogo entre Flávio e Vorcaro para os entrevistados. O problema é que o áudio era mostrado DEPOIS da pesquisa. Isto afeta a pré-candidatura do Flávio? Por óbvio que sim, mas não a pesquisa.

De acordo com a regra, definida pelo próprio TSE em 2024, é necessária a apresentação de um laudo técnico para comprovar a manipulação. Procurei e não encontrei nada.

Kassio Nunes foi nomeado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro e é visto como um representante da direita no STF. A votação pode ser um termômetro de como será a eleição este ano, entender a postura do tribunal em relação as pesquisas e campanhas e tentar desvendar qual é o tamanho do apoio do tribunal ao Presidente.

O que é menos prejudicial? Deixar o resultado da pesquisa correr e, em algum momento, ser substituído pela próxima pesquisa ou tentar barrar a divulgação via TSE? Bom, eu e centenas de pessoas estamos escrevendo sobre enquanto aguardamos o parecer do TSE. Dificilmente eu escreveria sobre uma pesquisa em que mostra Flávio Bolsonaro desidratado. Depois de tantos escândalos, era esperado.

Resolução 23.727

https://www.tse.jus.br/legislacao/compilada/res/2024/resolucao-no-23-727-de-27-de-fevereiro-de-2024

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Idosos – os desafios para os próximos anos https://alcatrazes.com/idosos-desafios/ Thu, 04 Jun 2026 18:07:19 +0000 https://alcatrazes.com/?p=768

De acordo com o IEPS (Instituto de Estudos para políticas de Saúde) o envelhecimento populacional ocorre de forma acelerada, se continuarmos neste ritmo, a população idosa deverá superar a população infantil em 2031.

Há duas questões, a primeira é o encolhimento da família brasileira, entre a década de 60 e 70 a média era de quase 6 filhos por mulher, atualmente este número orbita em 1,6.

Ingresso ao mercado de trabalho, acesso a métodos contraceptivos e alto custo para a criação dos filhos são alguns dos fatores.A outra questão é a expectativa de vida, na década de 40 a expectativa era 45 anos, atualmente são 73 anos para homens e 79 para mulheres. A longevidade é o resultado de políticas públicas com melhorias em saneamento básico, higiene, avanços e expansão na área de saúde. Apesar de ser um salto no desenvolvimento brasileiro, traz grandes desafios para políticas públicas. O planejamento é voltado para a população jovem, com pouca ênfase nas necessidades dos idosos, o que torna urgente pensar estratégias para atender este grupo. A projeção é que em 2029 a população idosa supere a quantidade de crianças e jovens até 14 anos. 2050 serão 30% da população brasileira.

A previdência social é um bom exemplo. O sistema é um pacto geracional, onde a população ativa contribui e sustenta os aposentados, se as projeções se concretizarem, a população aposentada superará a população ativa. Mesmo com as recentes reformas nas regras de aposentadoria a previdência colapsará.

Na saúde o quadro também é alarmante, o idoso altera a carga de doenças e aumenta o número de atendimento, necessita de especialidades médicas distintas e, de acordo com o IEPS, o sistema brasileiro está pouco preparado para lidar com o grupo, a disponibilidade de recursos humanos e físicos especializados no cuidado de idosos é baixa e não tem crescido na última década”. A renda também é um fator preponderante, quanto menor a renda, menor a saúde.

A proteção ao idoso era responsabilidade apenas do Governo Federal, mas com a PEC 81/2015 alterou as competências legislativas para o estado e municípios, sem isentar o governo federal. O objetivo era estimular políticas locais respeitando as necessidades regionais.

Se entendermos o idoso como uma pessoa autônoma (não necessariamente independente) com necessidades que vão além da saúde integral é necessário pensar em moradia, segurança, participação social, dignidade e qualidade de vida.

O vereador Tião da Solange, trouxe o tema na última sessão com o requerimento 116/2026 e pergunta se há estudos sobre a quantidade de idosos, quais se encontram em situação de vulnerabilidade. Se há fila de espera para acolhimento institucional, se há repasse ou planejamento para criação de abrigo ou centro dia e, se há alguma política pública para dar suporte financeiro às famílias que não possuem condições financeiras ou disponibilidade integral para idosos.

Atualmente, São Sebastião tem o lar vicentino com apenas 26 vagas e há também o “Cuidarte” que oferece day care, mas com valores proibitivos para grande parte da população e a SEPEDI (Secretaria da Pessoa com Deficiência e do Idoso) com algumas atividades voltadas aos idosos.

O vereador tocou um ponto importante, as desigualdades sociais são agravadas na velhice, não só para o idoso, como também para sua família. O cuidado com o idoso recai de forma desproporcional sobre as mulheres, que se vêm divididas entre cuidar dos filhos, trabalho e afazeres da casa, pensar em algum suporte financeiro garantiria alguma tranquilidade para a família e idoso. A antiga administração desapropriou o “clubinho portal da olaria” com o pretexto de criar um abrigo para idosos, mas não encontrei nenhuma informação sobre.

Para saber mais:

IEPS

https://ieps.org.br

Senado Federal https://www12.senado.leg.br/noticias/infomaterias/2025/06/envelhecimento-da-populacao-impulsiona-novas-acoes-em-defesa-dos-idosos

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Licença Paternidade https://alcatrazes.com/licenca-paternidade/ Wed, 03 Jun 2026 19:52:30 +0000 https://alcatrazes.com/?p=763

A licença paternidade é um direito trabalhista, garantido pela constituição (artigo 7 da constituição) e não é restrita ao pai biológico, o direito vale também para mãe não gestante e, em caso de nascimento ou adoção de crianças com deficiência, a licença tem um acréscimo de 1/3 do tempo. Atualmente são 5 dias de licença, mas de acordo com a lei 15.371 (sancionada em março de 2026) a licença terá um aumento progressivo: 10 dias a partir de 2027; 15 dias em 2028; até chegar em 20 dias em 2029 e mais o salário paternidade.

Atualmente, empresas inscritas no programa “empresa cidadã”, podem prorrogar a licença por mais 15 dias. O programa é regrado pela lei 11.770/2008 voltado para empresas optantes pelo Lucro real, o valor referente ao período da licença pode ser deduzido integralmente no Imposto de Renda da Pessoa Jurídica. Aqui no estado de São Paulo, a ALESP se adiantou e tramita pela casa a lei 418/2026, que concede 20 dias de licença para servidores e empregados públicos estaduais.

Por certo é um avanço, mas ainda estamos muito atrás. A Suécia, pioneira no mundo por instituir a licença paternidade, oferece 480 dias de licença parental, sendo 90 dias intrasferíveis do pai e o restante do período pode ser organizado pela família. A Noruega adota o mesmo modelo, oferece 49 semanas com salário integral, ou 59 semanas com 80% do salário sendo 15 semanas exclusivas para o pai. Dinamarca e Finlândia também possuem programas parecidos.

Por certo em um país como o Brasil, onde 1,2 milhão de crianças não são registradas pelos pais (número acumulado desde 2016) e 7,8 milhões de mulheres criam seus filhos sozinhas (IBGE), criar mecanismos para vínculo afetivo é válido, mas a questão é mais profunda do que isto.

Através de estudos, a Suécia identificou que havia uma relação muito grande entre o suicídio e o tempo para cuidar dos filhos, outro ponto foi o impacto positivo no desenvolvimento infantil com a presença do pai. Socialmente, a licença paterna quebrou estereótipos de gênero no mercado de trabalho e diminuiu a sobrecarga da mãe na famosa dupla jornada.

Há outros pontos importantes a médio e longo prazo, crianças que tiveram ambos os pais envolvidos na sua criação se tornaram adultos mais conscientes, mais seguros de si e com inteligência emocional mais desenvolvida.

Eu tive a sorte de presenciar e conversar com alguns pais e profissionais no breve período em que trabalhei para o Uppsala Short Film Festival, na Suécia como curadora. É impressionante como pequenos gestos podem promover tantas mudanças, mas só sobre este período seria um outro artigo.

Recomendo muito o filme “O começo da vida” da diretora Estela Renner financiado pela Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, o documentário percorre diferentes países e diferentes realidades e mostra que uma boa educação não depende apenas de dinheiro. A fundação trabalha em diversos municípios conscientizando a importância da primeiríssima infância, inclusive aqui, em São Sebastião.

Tanto preâmbulo para chegar aqui, em São Sebastião. Ontem, dia 02/06 na 18ª sessão o vereador e presidente Edgar Celestino (requerimento 139/2026) solicita a prefeitura a realização de estudos para ampliar a licença paternidade dos servidores públicos. Por certo, a iniciativa deve partir do executivo, mas é bom saber que os vereadores estão atentos com pautas tão importantes. Aguardando ansiosa a resposta do executivo.

  Para saber mais um pouco sobre o assunto:

Global People strategist: https://globalpeoplestrategist.com/scandinavian-parental-leave-laws/

Fundação Maria Cecília Souto Vidigal https://fundacaomariacecilia.org.br/

Lei 15.371 https://www2.camara.leg.br/legin/fed/lei/2026/lei-15371-31-marco-2026-798908-norma-pl.html

Câmara federal explicando a proposta: https://www.youtube.com/watch?v=EPvmtS3bERY&t=2s

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Ódio de classe e ano eleitoral https://alcatrazes.com/odio-de-classe-e-ano-eleitoral/ Mon, 25 May 2026 15:03:09 +0000 https://alcatrazes.com/?p=734

A pantomina

Parece que em ano de eleição vale tudo. O apresentador Luciano Hulk, em um evento para empresários, criticou o programa bolsa família. Na fala, citou uma cidade onde 56% da população é dependente do bolsa família e associou o programa ao problema de mobilidade social no Brasil. De acordo com ele, o brasileiro precisará de 9 gerações para sair da vulnerabilidade social e programas sociais como o Bolsa família desestimulam as pessoas.

Oi?

O apresentador utilizou um relatório feito em 2018 pela OCDE, comparando 30 países (atualmente somos algo entre 194 e 206, dependendo do seu espectro político). O relatório reconhece as iniciativas do governo em mitigar a desigualdade social, enaltece a saída de 25 milhões de brasileiros da pobreza graças a programas sociais implantados desde 2003, só lamenta que não é suficiente. No final, pasmem, recomenda mais investimentos em programas sociais, atenção à educação e saúde. Não é o que está sendo feito?

A mobilidade brasileira

Realmente os números não são muito animadores, de acordo com o “Atlas da Mobilidade Social”, publicado em 2025, os jovens têm mais chances de superar seus pais, mas infelizmente não migram para o grupo dos 50% mais ricos.

Ao contrário do que o apresentador afirma, o programa Bolsa Família é um motor propulsor para a mobilidade social. referendado pelo Banco Mundial, conta com seu apoio técnico e financeiro, o programa serviu de inspiração para programas similares em dezenas de países.

O programa chega à uma parcela da sociedade que historicamente era esquecida, outro ponto importante é vincular o benefício a frequência escolar e acompanhamento médico dos filhos (as ações que o relatório recomenda).

No final de 2025, a FGV apresentou um estudo sobre o Bolsa Família e a quebra do ciclo de pobreza. Os principais resultados são:

– 60,68% dos beneficiários cadastrados em 2014, deixaram o programa até 2025;

– O maior grupo é composto por adolescentes, 68,8% entre 11 e 14 anos e 71,25% entre 15 e 17 anos.

O estudo ainda aponta que fatores transversais são decisivos para os resultados. Etnia, escolaridade (do indivíduo e dos seus pais), gênero, características do trabalho e localização ajudam na mobilidade social. O grupo com mais chances de ascender são os homens brancos e as mulheres negras o grupo com condições mais desafiadoras.

A região Sul e Centro-oeste lidera a saída de indivíduos do programa, 79,65% seguido por 76,54%, área urbana supera área rural. 79,40% de pessoas que deixaram o programa ingressaram no mercado formal com a carteira registrada e 65,54% estão por conta própria.

Apesar da dificuldade em ingressar no grupo dos mais ricos, 49% estão em situação financeira melhor do que os pais. Se o copo está meio cheio ou meio vazio depende de quem olha, por um lado há a frustração de ainda permanecer no grupo dos 50% mais pobres e do outro, entender que, houve uma melhora significativa na qualidade de vida. As condições no Brasil melhoraram muito, só comparar com as décadas de 80 e 90 onde a mobilidade era descendente, gerada pela redução de trabalho e inflação crônica.

O governo tem afunilado o programa, promovendo incentivos para os grupos com pior performance como mulheres, negros e pessoas em vulnerabilidade extrema.

Parafraseando Júlio Cortázar, o desafio é combatido por pontos, não por nocaute.

Mobilidade no litoral norte de São Paulo

A região, apesar de estar levemente abaixo da região Sudeste, tem indicadores melhores do que o resto do Brasil. Caraguatatuba é o cenário mais desafiador para chegar aos 10% mais ricos e São Sebastião, apesar do indicativo baixo, é a cidade mais propensa a manter índices de extrema vulnerabilidade social. No mais, a região perpetua a tendência brasileira, mantendo a maioria dos jovens nos 50% mais pobres.

O bolsa família tem 25.862 famílias cadastradas em Caraguatatuba, 6.145 famílias em Ilhabela e 15.852 famílias em São Sebastião (fonte governo federal https://aplicacoes.cidadania.gov.br/ri/pbfcad/index.html )

Considerações

Todo político entende a importância do programa e nenhum deles teria coragem de cortá-lo. A prova disto foram os governos Temer (2016 a 2018) que reajustou o benefício e zerou a fila de espera e, o governo Bolsonaro (2018 a 2022), que vociferava contra o programa e seus dependentes em palanques e redes sociais, mas quando assumiu a cadeira mudou o nome do programa, mas manteve o foco em famílias em situação de extrema pobreza, incorporando mais benefícios focados na primeira infância, jovens e produtores rurais.

Então por que, após a criação do benefício, em todo ano eleitoral surgem ataques contra o programa? Para quem é direcionado? Qual grupo de eleitorado querem atingir?

A educação hoje não é mais garantia de um bom emprego e classe média é o grupo mais sensível as variações econômicas. A classe média vive no limite e expõe toda sua ignorância e fragilidade sem pudor. Não é raro percorrer as redes sociais e assistir a milhares de recortes debochando das suas aspirações e anseios. Talvez, seja o momento do governo dispensar alguma atenção ao grupo. Por óbvio não falo em direcionar verbas de programas sociais para algum afago à classe média, há problemas mais sérios do que delusions (olha eu aqui debochando), mas esquecemos que são pais e mães que estão lutando duro para darem qualidade de vida para seus filhos e todo o preconceito que vomitam, muito provavelmente tem origem em alguma má experiencia. Enquanto devolvermos o ódio, o grupo continuará sendo presa fácil para discursos mentirosos e populistas.

FGV: Apresentação

https://portal.fgv.br/noticias/estudo-da-fgv-sobre-o-bolsa-familia-revela-quebra-de-ciclo-da-pobreza-intergeracional

FGV mapa da riqueza

https://cps.fgv.br/riqueza

Atlas da mobilidade social no Brasil

Artigo da OECD

https://www.oecd.org/en/topics/social-mobility-and-equal-opportunity.html#key-messages

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