Do discurso à ação.

A deputada estatual Solange Freitas (UNIÃO BRASIL) veio até São Sebastião encontrar-se com o ex-prefeito Felipe Augusto, a conversa de bastidor seria uma eventual parceria para as próximas eleições. Tudo certo, só tem um problema: A principal bandeira da deputada é a violência contra a mulher, já Felipe Augusto responde alguns processos por agressão doméstica (abertos por diferentes parceiras).

A situação levanta tantas possibilidades que foi difícil manter só uma linha narrativa.

Antes de escrever o texto, mandei uma mensagem para a deputada, na esperança de receber alguma justificativa, mas como esperado, não obtive resposta. Sem resposta, acabo mergulhada em hipóteses, elenco apenas três:

1 – A deputada é mal-informada. Ela se desloca até São Sebastião para conversar sobre uma eventual aliança política, mas não sabe dos processos do ex-prefeito. Na verdade, não precisava nem ir tão longe, só ver os prints, trechos de vídeos que o próprio postou, já daria para ter uma ideia do que ele pensa sobre as mulheres;

2 – A luta da deputada é pro forma. Seu instagram é recheado de depoimentos, denúncias e conquistas para as mulheres, a deputada faz parte da Comissão de Defesa e dos Direitos das Mulheres na ALESP. A percepção que passa é de uma deputada bem ativa, a própria deputada grava vídeos indignada com agressores, posta fotos deles com a legenda “procurado”. Mas nada disto a impediu de articular alianças políticas com um suposto agressor.

3 – Ela confia na ignorância dos eleitores. Uma parceria ambígua alavancaria seus votos, mesmo se associando com o que ela jura combater.

A pior alternativa é a terceira. Não que as outras não sejam suficientemente ruins, mas ao dar espaço, legitimizar a presença de um agressor na vida pública sabendo disto, ela não só joga fora tudo o que diz combater, como também joga no lixo a luta de todas as mulheres. Até quando nós veremos mulheres relativizando comportamentos abusivos? Mulheres que ocupam espaço de liderança. São lutas que não permitem relativismo, exceções.   

Na última eleição, dos 94 parlamentares estaduais eleitos, apenas 25 são mulheres. Apesar de ser um recorde, está muito aquém do ideal. A mulher representa mais de 52% da população mundial e isto não se reflete nas nossas lideranças.

A maior parte das deputadas foram eleitas com discurso contra a violência e políticas públicas voltadas para a mulher. Muito legal, né? Sim, desde que seja de verdade e não fique só em conversa de palanque ou que morra em acordos nebulosos.  

sobre o autor

  • Formada em comunicação com habilitação em cinema, trabalhou em diversos festivais dentro e fora do Brasil. Foi curadora e produtora de cinema, atualmente trabalha com pesquisa de mercado, comunicação institucional e marketing político

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