Alcatrazes https://alcatrazes.com cultura e política Thu, 26 Feb 2026 15:42:49 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.9.1 https://alcatrazes.com/wp-content/uploads/2025/03/logo-Alcatrazes-branco-2-150x150.png Alcatrazes https://alcatrazes.com 32 32 Águas de março https://alcatrazes.com/aguas-de-marco/ Thu, 26 Feb 2026 15:42:49 +0000 https://alcatrazes.com/?p=678

Quem vive ou está de passagem pelo litoral norte nesta época do ano é norteado pelas chuvas. Os alertas de tempestade passam a ser quase diários.  São tantos gritos de “É o lobo! É o lobo!” que a gente começa a ficar anestesiada. Não estou reclamando, eu entendo que prever é quase mágica. Previsão de 300 mm, chove 70 mm. Previsão de 150 mm, chove 800 mm.

Você cuidando da sua vida e vem a chuva. A chuva não para. A chuva engrossa. A chuva persiste. Dou uma olhada no rio, dentro da normalidade. Tábua de mares e fase da lua. Equação e fé. E a chuva continua no mesmo ritmo. Começo a percorrer os grupos da cidade para saber sobre barreiras, pontos de alagamento ou acidentes. Acaba a luz e junto com ela a internet. Celular e espiada no rio. E a chuva chovendo, sem se importar com o meu sofrimento. Parece até que fica mais forte, só para me atormentar. Perdi o sono. Moro em um lugar alto, vejo a tragédia de longe, mas preciso de rota de fuga. Nos grupos um monte de oração e frases feitas, pouca informação útil. E culpam a população por jogar lixos na rua, culpam os políticos por não olharem a população. Sério, eu não sei como as pessoas conseguem ficar presas nestes loopings mentais. Não cansam? Eu consigo até visualizar a cara do cidadão quando, no meio de um temporal, gente com água nas canelas e ele decide que o comentário mais inteligente é reclamar do lixo nas ruas. Se liga, palestrinha.

Enquanto eu estava no impasse entre dormir ou correr pelas estradas sem destino, recebo um boletim da prefeitura e defesa civil: Caiu uma barreira em Juquehy e abriram um ponto para receber as pessoas.

Em 2023, após a tragédia que matou 65 pessoas, foi muito difícil saber o que fazer, principalmente porque as informações chegavam desencontradas. Uma das barreiras caiu ao lado da minha casa, a informação correu, mas não impediu que centenas de pessoas tentassem sair da costa sul pela tamoios. Após um breve tempo, recebo outros boletins, mesmo com a chuva ainda forte, fui dormir. situação estava sobre controle. A chuva ainda tentou me intimidar ficando mais forte, não adiantou. Decepcionada, resolveu diminuir o ritmo. Novo alerta, barreira removida e situação sobre controle.

Entendo que os boletins são mais importantes do que os alertas de tempestade. Eu não sei como são disparados os boletins, se estão separados por regiões, ou sei lá quais outros critérios podem balizar o serviço, mas ajudou.

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O Tomador de Conta https://alcatrazes.com/o-tomador-de-conta/ Thu, 26 Feb 2026 15:23:29 +0000 https://alcatrazes.com/?p=674

Aqui em São Sebá, sou um faz quase-tudo. Além de pescar, eu também faço
rango (e lavo a louça, sim), passo uma vassoura na área externa (tá bom, tá
bom, de vez em quando), espalho quirera e ponho bananas para os
passarinhos no quintal, cuido da frente da casa, do jardim e de minhas plantas
– meu caramanchão de maracujá está carregado (da primeira florada e logo
vou colher alguns para dar uma cor à minha vodca), além de fazer um monte
de outras coisas que um bom tomador de conta faz.

Sim, eu tomo conta de algumas coisas porque, se eu não fizer, ninguém faz (ou
ninguém faz porque eu faço, sei lá) – tipo apagar luzes em cômodos vazios,
desligar a TV quando ninguém está vendo, colocar água no filtro, esvaziar os
cestinhos de lixo, tirar o lixo, separá-lo e colocá-lo no lugar certo para a coleta
etc etc etc – ou seja, o mesmo que todos fazemos em nossas casas.
Mas não o Almeida. Ele não toma conta só da casa dele. Ele toma conta de
tudo de todo mundo. O que ele vê ou sabe tem que estar do jeito que ele acha
certo. Vive criticando a forma com que os vizinhos fazem qualquer coisa:

  • “Pô, eles deviam amarrar o saco de lixo assim e assado, não do jeito que
    está, pode vazar na rua”.
  • “Droga, o seu Zé devia apagar a luz da garagem, vai ficar acesa o dia
    inteiro…”
  • “Credo… o coronel devia podar melhor essas plantas… tá sobrando dos
    lados…”
  • “Nossa, o fulano ali precisa mandar cortar a grama…”
  • “Não sei como eles ficam dormindo até tarde desse jeito…”
  • Olha só, olha só… roupa pendurada na janela! Eles não tem vergonha…” E por aí vai. Mas, pior ainda, ele fica “tomando conta” do que você está
    fazendo quando está com ele! Tava eu pescando outro dia desses, lá chega o
    Almeida – justamente na hora que eu tinha acabado de enroscar minha isca
    numa pedra e estava tentando tirar com jeito para não arrebentar – e ele logo quis “me ensinar” a como tirar o enrosco, pois “do jeito que você está fazendo não vai conseguir”. Pegou a linha… puxa daqui, puxa dali e – claro – nada de soltar. Entrou na água, saiu da água, andou pra lá, andou pra cá, mas não tinha jeito. Tava preso mesmo. Ficou um tempão nisso… e eu ali com cara de tacho.
    Aí, eu tomei a decisão que tinha de ser tomada: puxei a linha até arrebentar.
    Faz parte do negócio pescaria, né? Pois o Almeida ainda reclamou comigo: “Pô, você apelou, eu já ia soltar essa linha. Agora você perdeu sua isca
    artificial!”
    Pensei comigo: “É, Almeida, eu perdi a p de um camarãozinho artificial. Que
    melda, não?”. E fui pra casa cuidar da vida. Da minha vida.
    E você, tem algum Almeida por perto?

Abril/2014

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Aniversário de São Paulo https://alcatrazes.com/aniversario-de-sao-paulo/ Sun, 25 Jan 2026 19:34:32 +0000 https://alcatrazes.com/?p=666

Feliz Aniversário São Paulo!

Imagem e texto de Daniel Navarro

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Sobre trolls, hienas e políticas públicas https://alcatrazes.com/sobre-trolls-hienas-e-politicas-publicas/ Wed, 21 Jan 2026 15:14:01 +0000 https://alcatrazes.com/?p=662

Ontem, dia 20 de janeiro foi comemorado dia de São Sebastião, nosso patrono.

Para quem é de fé, ou não, é hora de respirar fundo e encarar 2026. Ano eleitoral é sempre complicado, mesmo que a eleição não seja para a esfera municipal, as cidades sentem e muito. Tem gente tentando, genuinamente, conquistar um cargo federal (o que seria ótimo para a região), outros testando sua popularidade e a oportunidade para visitar as pessoas mirando futuras eleições e tem também, as hienas. Gente que aparece de tempos em tempos só para tumultuar. Acredita que denúncias e gritarias virtuais vão garantir algum destaque. Dia sim e outro também estas figuras aparecem esbravejando frente a qualquer problema. Curioso que elas pulam de um problema para o outro, com a mesma energia, dependendo da reação da audiência. A questão não é o problema em si, mas a visibilidade que a gritaria e indignação podem gerar.

No começo de janeiro, uma jovem perdeu a vida em um ônibus em São Sebastião. Difícil chamar de acidente, tenho para mim que acidente é outra coisa. Mas estão investigando e eu espero de coração que encontrem os culpados e sejam responsabilizados, perder a vida de uma forma tão banal tornou tudo mais hediondo. Tinha 26 anos e dois filhos. Eis que aparecem os justiceiros de ano eleitoral, querem porque querem politizar. Seguem em manobras mentais mirabolantes para que os aliados sigam inocentes e adversários políticos culpados.  Zero compromisso com a dor, a perda ou a realidade. É só palco. Do dia 6 ao dia 20 de janeiro passamos do “nunca te esqueceremos” ou “justiça para a família” para o total silencio. Não se comenta mais, sabe por quê? Porque a audiência não permitiu a politização do caso.  Eles se envergonham? Imagine. Depois que o circo passou, a família continua em luto. Eu acho que há maneiras mais dignas de ganhar dinheiro, mas enfim.

Depois a grande denúncia do momento era a não publicação da LOA, mesmo com a PPA e a LDO publicadas. Administração publicou a LOA e explicou o atraso por problemas técnicos. O que foi encarado como “um grande erro de gestão” ou ainda que “A sociedade de São Sebastião não pode ser refém de “explicações técnicas”. A figura nunca apareceu em nenhum dos encontros promovidos para a discussão do orçamento e pessoalmente não consigo ver alternativa para discussão pública sem explicações técnicas. Sabe por que este povo não vai até o ministério público? Porque sabem que não há nada ali, só gritaria para tentar alguma relevância.

Agora, a indignação da semana são “áudios vazados” de suposto esquema na banda municipal. Uns três gritaram, como não houve eco, as hienas políticas se recolheram e logo passarão para o próximo assunto.

A cidade passa por problemas sérios, há desafios reais como lixo, meio ambiente, abastecimento de água ou energia, equilíbrio das contas públicas, fluxo turístico, empregos, etc. Há um espaço enorme para discutir a cidade, apresentar soluções ou apontar problemas, mas para as hienas eleitorais o importante mesmo é sua performance.

A sociedade tem dado pistas sobre a mudança de comportamento, acho que cansamos dos TROLLs. Um exemplo bem didático para o que eu quero dizer, foi a participação relâmpago do participante Pedro no BBB, ele era uma figura desinteressante e sabia disto, em busca de relevância tentou emplacar alguns conflitos com comportamento errático. A ideia, apesar de batida, já funcionou outras vezes, o problema foi a execução dele e a exaustão das pessoas, nem o público e nem os outros participantes embarcaram na dele. Não se fala mais dele, nem mesmo para criticar, riscado da vida pública como deve ser.

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Legado cultural? https://alcatrazes.com/legado-cultural/ Thu, 08 Jan 2026 13:24:14 +0000 https://alcatrazes.com/?p=659

Em Boiçucanga, há um bloco chamado Vai-Quem-Quer.

Cinquenta anos de história.

Carrega em seu samba a palavra “legado” como se ela, sozinha, pudesse se sustentar no ar. Um bloco que se diz caiçara, comunitário, resistente. Um bloco que fala de resistência, mas tem esquecido como praticá-la.

Não sou daqui. Sou de São Paulo. Moro aqui há nove anos, tempo suficiente para entender que o litoral não foi apenas ocupado por casas de veraneio. Existe uma cultura que chega com mais força do que escuta. Em 2019, fui chamado como músico para cantar no bloco. Aceitei porque vi algo raro: um espaço que falava da terra, da pesca, da comida, da origem. Um bloco que parecia dizer: ainda estamos aqui. Cheguei de ouvidos abertos e boca fechada, falando quando solicitado, ouvindo e aprendendo sobre as coisas daqui com a comunidade local.

Quando cheguei, vi um bloco com ritmistas cheios de orgulho e que misturava referências, como todo carnaval faz, mas tinha foco. Sambas da região, marchinhas, músicas populares adaptadas, bateria na rua e, sim, sambas-enredo do Rio. Tudo cabia, porque nada ofuscava o essencial. O desfile tinha um propósito. Era o dia do grito do caiçara. Mas parece que o grito emudeceu.

Em 2023, no dia que deveria celebrar a cultura local, o bloco decidiu cantar 100% sambas do Rio de Janeiro. Não havia sambas da região. Nenhum refrão que falasse do chão, do mar, do povo dali. Em vez de “somos dessa terra, raiz desse chão”, ouvimos o eco distante lá da guanabara como se importasse “que ti ti ti é esse que vem da Sapucaí”. Não por alguns momentos, mas por todo o desfile.

Minha parte não foi cantada. Fui convidado, deixei de trabalhar e de ganhar dinheiro para me tornar um figurante em um carro de som junto com minha parceira Rô Cabelini, caiçara de Boiçucanga, batizada na Igreja da Praça da Mentira, onde ensaia o bloco, cantora respeitada no território e que se apresenta nos palcos da prefeitura, mas que também foi silenciada. Uma viagem não avisada. Um desrespeito não declarado. E, como sempre, normalizado.

O problema não é cantar samba do Rio. O problema é trocar identidade por um repertório fácil. É substituir memória por música pronta. É chamar de resistência aquilo que, na prática, é rendição.

A contradição é ainda mais cruel quando se sabe que um dos fundadores do bloco guarda um verdadeiro acervo de sambas e fandangos caiçaras. Músicas que nasceram ali e falam daquele povo e daquela terra. Um tesouro trancado enquanto o bloco que se diz guardião da cultura prefere importar um carnaval inteiro já pronto.

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Os Galos de Porto de Galinhas https://alcatrazes.com/os-galos-de-porto-de-galinhas/ Tue, 30 Dec 2025 16:16:19 +0000 https://alcatrazes.com/?p=655

Uma cena lamentável percorreu as redes sociais esta semana, um casal de turistas foi espancado por ambulantes em Porto de Galinhas, Pernambuco.

Foi uma sucessão de horrores, durante o linchamento, as vítimas relatam que enquanto tentavam fugir, procuravam policiais ou alguém que pudesse ajudá-las, mas não havia policiamento e as pessoas só filmavam. Finalmente apareceram alguns bombeiros que, conseguiram a muito custo, tirá-los de lá. Chegando no hospital, não havia equipamento para atendê-los e nem ambulância. Pagaram do bolso a ambulância e alguns exames. Enquanto a governadora de Pernambuco fala nas redes sociais, eles se encontram presos no hotel com medo de saírem às ruas.

A história começou com os preços abusivos, grosserias e uma conta final que não correspondia com o valor acertado previamente. O casal era grosseiro? Não era? o que importa? Adoraria receber dobrado a cada grosseiro que eu encontro, mas não é assim que funciona. Há dezenas de comentários, vídeos e depoimentos nas redes sociais, publicados muito antes da tragédia, e todos acabam corroborando a versão do casal. Há uma cultura de exploração e coerção. A outra opção é reconhecer que há uma grande conspiração mundial contra os ambulantes de Porto de Galinhas.

Onde estão os vereadores e prefeito de Ipojuca? Procurei nas redes e achei uma declaração genérica do prefeito. Um local turístico que recebe quase 2 milhões de pessoas por ano não tem ambulância? Não tem um hospital ou um pronto socorro equipado? Não tem policiamento? Quais são as regras para emitir a licença? Há um teto para as licenças ou quanto mais melhor?

A história me lembrou um acontecimento no começo do ano em Salvador. Os ambulantes resolveram fazer greve porque a prefeitura determinou que as barracas só seriam montadas mediante solicitação do cliente. Os ambulantes fizeram greve e a população aplaudiu. Foi uma greve com grande apoio popular. torciam para que durasse bastante. A praia do Porto da Barra ficou linda sem aquela poluição visual.

A verdade dolorosa é que, sem regramento, estamos a um passo do caos. É legítimo o trabalho do ambulante, se bem-organizado. Alguns anos a prefeitura de São Sebastião limitou o número de barracas por ambulante e determinou que só poderiam montá-los mediante solicitação, o que foi um alívio, não era raro encontrar a praia tomada por guarda-sóis vazios esperando clientes. A praia é pública, utiliza os serviços dos ambulantes quem quer. O litoral norte de São Paulo, como um todo, busca caminhos para encontrar um equilibro, mas não é fácil. O aumento excessivo da população sobrecarrega os serviços e que só piora com o efeito que as frases “estou trabalhando” ou “trabalhei o ano todo” produz nas pessoas. Uma falsa sensação de que você pode fazer o que quiser. Amigão, todo mundo trabalha, ninguém ganha medalha ou vira herói nacional depois de um dia de trabalho.

Estima-se que em 2025 o Brasil recebeu 9 milhões de turistas estrangeiros, só para fazer uma comparação, Vietnã recebeu mais de 21 milhões no mesmo período. Se este número dobrasse em 2026, teríamos condições de recebê-los?

Outro ponto é a como nós nos transformamos em produtores de espetáculo. Você vê uma pessoa sendo linchada e sua primeira reação é sacar o celular e gravar. Sério? Minha crítica passa longe de profissionais que conseguem manter o foco mesmo durante os momentos mais críticos, cobrir guerras e desastres não é para qualquer um, eu mesma sou do tipo que larga a câmera e tento ajudar. Documentar situações extremas é fundamental e os celulares são responsáveis por muito mais transparência nas relações interpessoais. Mas, posto tudo isto, ainda assim, me choca ver pessoas gravando o sofrimento alheio por diversão. Parabéns pelo engajamento!

Seria fácil se o problema fosse só em Porto de Galinhas, mas não é. Verão virou sinônimo de sofrimento: música alta 24h por dia, filas quilométricas para qualquer coisa, brigas generalizadas, gente bebendo pelas ruas como se não houvesse amanhã, trânsito caótico enquanto você derrete sobre um calor de mais de 40º. Tenho para mim que, se existir inferno, é assim que as pessoas malvadas vão passar a eternidade: Presos no verão brasileiro com seu sofrimento gravado pelos transeuntes 24h por dia.

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Águas de Boiçucanga https://alcatrazes.com/aguas-de-boicucanga/ Mon, 15 Dec 2025 18:19:50 +0000 https://alcatrazes.com/?p=651

Águas de Boiçucanga

Por detrás da mata ciliar, chega o som do rio

Mais um sentido a me conectar ao alto mar

Das águas caudalosas do Rio Boiçucanga

Não para de passar por mim

Não para de saltar a pedra

Não para de nascer

Nem de encontrar o sal

Se te pareço tonto é porque o mundo gira

E meu pensamento vou mandar, junto com o rio

E quando com o sal eu encontrar, eu vou saltar

Vou correr na praia com a cachorrada

Correr com a matilha

Correr livre na areia

Correr de volta

Pra onde o rio encontra o sal

Se te pareço tonto é porque o mundo gira

Sigo caminho rumo ao alto mar, me despeço do rio

Aí o sol vai me evaporar, da superfície

Vou passear de nuvem carregada

Chover na terra

Chover na serra

E por detrás da mata ciliar

Soar o som do rio

Por detrás da mata ciliar, chega o som do rio

Das águas caudalosas do rio Boiçucanga, chega o som do rio

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Contas reprovadas e a Secretaria de Planejamento https://alcatrazes.com/contas-reprovadas-e-a-secretaria-de-planejamento/ Thu, 04 Dec 2025 20:54:03 +0000 https://alcatrazes.com/?p=645 O Tribunal de contas acaba de reprovar as contas de 2022 e 2023 do ex-prefeito Felipe Augusto. Normalmente a batalha avança para a Câmara municipal e os vereadores têm o poder de aprovar as contas mesmo com todos os apontamentos do Tribunal, mas como houve danos ao erário público, mesmo com anuência da Câmara de Vereadores de São Sebastião, poderá ficar inelegível.

Foram uma série de apontamentos sérios, mas chamou minha atenção o descaso com o planejamento. O objetivo da secretaria de planejamento é projetar como o dinheiro arrecadado será utilizado. O município tem compromissos, como por exemplo o fundo de aposentadoria do servidor público, empréstimos, 15% de receita a ser investido na área da saúde e 25% investido em educação. Um detalhe, “investir” não significa gastar o dinheiro na pasta, mas garantir que este investimento retorne em serviço de qualidade e atenda os anseios da população, logo no início do parecer é levantada a ineficiência qualitativa dos serviços oferecidos pela prefeitura. Gastou, mas gastou mal.  

Um exemplo levantado pelo procurador era sobre 178 crianças na fila de espera nas creches, mesmo sabendo, a prefeitura preferiu gastar quase 7 milhões para as etapas de ensino médio e superior. A defesa do ex-prefeito alega que reduziu para 1 na fila no ano seguinte, mas de acordo com o parecer, resolver o problema no ano seguinte não fará as 178 crianças tenham acesso ao ensino retroativamente. O problema é agora, ano que vem é ano que vem. Com um pouco de planejamento o número de vagas poderia ser projetado, mesmo que não atendesse todas, um pequeno remanejamento teria resolvido o problema.

Mas não há pequenos remanejamentos, em 2022 as alterações orçamentárias chegaram a 94,93% tornando a peça orçamentária uma ficção infantil. Se não bastasse, em 2023 os remanejamentos chegaram a 110,18%. O parecer ainda, recorda que o “orçamento público não é mera formalidade legal, mas que deveria espelhar a real finança do município fundamentada na segurança, previsibilidade e transparência”.

Poderíamos alegar inexperiência, mas lembre-se que falamos de um prefeito no final do seu segundo mandato, teve tempo e oportunidade para aprender a fazer uma projeção de gastos e conhecer a cidade e seu problemas crônicos.

Apesar de serem dois anos atípicos, primeiro a pandemia e logo em seguida a tragédia de fevereiro/23 também não conseguem justificar o remanejamento de 110% do orçamento. Ainda mais quando você pesquisa e descobre que a prefeitura fez pouco caso, mesmo ciente, de áreas de risco devidamente mapeadas pelo IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas) desde 2018 e não reservou dinheiro na LDO ou LOA. Se tivesse destinado, talvez a história hoje seria outra.

Por fim, para desmoronar qualquer argumento de defesa, só lembrar que em 2023 entrou um pouco mais de 1 bilhão referentes aos royalties. Dinheiro suficiente para colocar a casa em ordem.

Apesar de ter uma secretaria de planejamento, primeiro acontece uma tragédia, depois fortalecemos a defesa civil e realocamos os recursos necessários, primeiro deixamos as crianças um ano sem creche para depois criar as vagas. O tribunal também apontou que mesmo após 14 meses da tragédia, em visita aos locais atingidos constataram resíduos, entulhos e lama nas áreas habitadas.

Sabe por quê? Entre outras coisas, o dinheiro estava sendo gasto com desapropriações sem estudos de impacto financeiro ou ambiental, alguns dos imóveis sequer tinham destinação definida.

Não satisfeito com tanto descaso com uma secretaria tão importante, no ano seguinte, o ex-prefeito chegou a nomear sua namorada Raquel Mendes para o cargo de Secretaria de Planejamento (portaria 1139/2024), mas acabou recuando frente a forte pressão popular.

Atualmente vemos uma briga de narrativa, o ex-prefeito Felipe Augusto acusa o atual prefeito de esconder o dinheiro, alegando que a calamidade financeira decretada em março/2025 é chilique. Olhando os apontamentos do TCE, a gente consegue entender o ponto de vista do ex-prefeito, dentro da sua lógica, refletida no planejamento dos últimos anos da sua administração, não há o porque de planejamento ou manter as contas em ordem.

O parecer ainda faz sérias referências a despesas de viagens sem justificativa, sem planejamento ou comprovação do interesse público. Os eternos penduricalhos dos comissionados e horas extras desproporcionais (a peça indica o caso de um servidor que chegou a fazer 9 horas extras diariamente).

Outro ponto importante é o gasto de quase 5 milhões em shows. O parecer reconhece a importância dos shows, e eles por si só, não são um problema. O problema está em contratar shows com serviços essenciais comprometidos e grave desequilíbrio fiscal.

A história não se encerra aqui, por isto recomendo a leitura da peça, são diversos apontamentos que refletem nas nossas vidas. Um pouco de racionalidade e previsibilidade não faria mal à administração pública. Que venham os shows e festas, só comprem antes os aparelhos necessários para a saúde.

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São Sebastião inicia mobilização para criar sua Cadeia Produtiva Local do Turismo com apoio do SEBRAE https://alcatrazes.com/sao-sebastiao-inicia-mobilizacao-para-criar-sua-cadeia-produtiva-local-do-turismo-com-apoio-do-sebrae/ Tue, 25 Nov 2025 23:42:36 +0000 https://alcatrazes.com/?p=637

A Associação São SebaTurismo — primeira associação de Turismo que une todo o Município, fundada em 2023 — está liderando um movimento estratégico para estruturar a Cadeia Produtiva Local (CPL) do Turismo de São Sebastião, em consonância com o Decreto Estadual nº 67.762/2023, que institui o Programa de Desenvolvimento de Cadeias Produtivas Locais no Estado de São Paulo.

Como parte do processo de habilitação oficial da CPL, será realizada no dia 26 de novembro, no Villa’ Mare Hotel, a Oficina de Planejamento Participativo (OPP), conduzida pelo SEBRAE, instituição reconhecida pela excelência em metodologias de desenvolvimento territorial e articulação de redes produtivas.

A criação de uma CPL permite ao município acessar novas possibilidades de captação de recursos, programas estaduais e federais, articulação interinstitucional, fortalecimento da governança e desenvolvimento econômico integrado. O processo também favorece a geração de emprego e renda, a qualificação dos produtos turísticos e o fortalecimento da competitividade de São Sebastião como destino sustentável.

A OPP é aberta a todos que fazem parte direta ou indireta da cadeia produtiva do turismo, incluindo empresários, prestadores de serviços, comunidades tradicionais, instituições públicas, produtores locais, setor acadêmico, entidades representativas e profissionais liberais.

Segundo a direção da São SebaTurismo, “a habilitação como CPL é uma oportunidade histórica para unirmos o território em torno de uma agenda de impacto, com visão de futuro, governança e sustentabilidade. É a chance de consolidar um modelo de desenvolvimento mais colaborativo, inovador e alinhado às vocações locais”.

Informações da OPP – São Sebastião
Data: 26/11
Local: Villa’l Mare Hotel
Duração: 1 dia de trabalho colaborativo
Inscrição: https://abrir.link/HlTnC
Realização: Associação São SebaTurismo
Facilitação: SEBRAE – OPP
Amparo Legal: Decreto Estadual nº 67.762/2023, que institui o Programa Estadual de Desenvolvimento de Cadeias Produtivas Locais

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Ciclo – Rota da Mata Atlântica (CRMA) https://alcatrazes.com/ciclo-rota-da-mata-atlantica-crma/ Mon, 10 Nov 2025 16:34:48 +0000 https://alcatrazes.com/?p=550

As trilhas de longo percurso não são uma modalidade nova de turismo, mas vem ganhando força nos últimos anos, justamente por aliar desenvolvimento e preservação. O litoral norte de São Paulo tem um ecossistema econômico frágil, somos cronicamente dependentes dos royalties e vivemos em área de preservação, o que limita muito as atividades permitidas. Os royalties se mantem por liminar, até quando ninguém sabe.

Com exceção de Caraguatatuba, as demais cidades estão ou já implantaram as TPAs (Taxa de Preservação Ambiental). A proposta é taxar veículos visitantes e destinar a arrecadação para mitigar os impactos causados pelo turismo.

Um dos lados mais perversos do turismo é a descaracterização do local e Barcelona é um exemplo muito emblemático. Em 2023 recebeu dez vezes mais pessoas do que sua população local, o impacto da presença maciça de turistas inviabilizou a cidade. O trânsito é permanentemente caótico, moradores são obrigados a conviver com ruído noturno e sujeira. Qualquer semelhança com o nosso verão não é mero acaso. Visitar um local, nestes termos, não te permite conhecer o local, o litoral norte de São Paulo é muito mais interessante quando não é verão.

Uma das soluções é a criação de roteiros e atividades que não dependam do verão para acontecer e mirar em perfis específicos de turista. Direcionar o público não significa que a cidade seja elitista ou não democrática, todos são bem vindos, mas só para dar um exemplo, um local com cassinos atrairá jogadores e um local com trilhas e natureza atrairá esportistas e pessoas que gostam de passar um tempo na natureza. Sem mágoas.

Posto isto, chegamos à iniciativa do Instituto Ilhabela sustentável que, com o apoio do Instituto Semeia e suporte da Secretaria Estadual de Turismo e Viagens, Fundação Florestal, Ministério do Meio Ambiente e municipalidades está desenvolvendo a CRMA – Ciclo Rota da Mata Atlântica, uma trilha de longo percurso.

A CRMA já está mapeada e conecta diversos caminhos históricos, estradas vicinais, trechos de fazendas, unidades de conservação, percorrendo o planalto da Serra do Mar em uma rota turística, que poderá ser percorrida tanto de bicicleta como a pé.

O percurso principal inicia-se no Caminhos do Mar, São Bernardo do Campo, ligando caminhos antigos como o Caminho do Sal (Zanzalá, Carvoeiros e Beto Ponteiro), Caminho do Imperador, Caminho dos Tropeiros, Estrada do Pavoeiro, Caminho do Padre Dória, e também conecta-se com outras rotas já existentes, como a Rota Márcia Prado (São Paulo – Santos), Rota da Luz, Volta da Represa em Paraibuna.

Em Cunha-SP a rota se conecta com a Estrada Real, Caminho da Fé,  Caminho Senhor Bom Jesus do Livramento, e no trecho final, no Parque Nacional Serra Bocaina, sempre nas bordas da Serra do Mar e terminando no município de Bananal, já na divisa do estado do Rio de Janeiro.

São mais de 500 Km que passam por diversas unidades de Conservação (Parque das Neblinas, Parque Estadual Serra do Mar e Parque Nacional Serra da Bocaina) formando um trajeto com natureza e caminhos históricos.

Os trechos 2 e 3 já estão sinalizados e agora em novembro, sinalizarão os trechos 4 e 5. Até o final do mês o trecho de Taiaçupeba até Cunha estará pronto, algo em torno de 300km. Até o final do ano, serão 550Km sinalizados, tornando-se uma das principais rotas de cicloturismo do estado.

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