Alcatrazes https://alcatrazes.com cultura e política Sat, 11 Apr 2026 19:00:57 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.9.4 https://alcatrazes.com/wp-content/uploads/2025/03/logo-Alcatrazes-branco-2-150x150.png Alcatrazes https://alcatrazes.com 32 32 Violência de gênero e a Câmara Municipal https://alcatrazes.com/henriana/ Sat, 11 Apr 2026 18:46:33 +0000 https://alcatrazes.com/?p=701

Tenho para mim que a frustração é um dos sentimentos mais difíceis de digerir. Difícil porque não há outra opção além da aceitação. Veja, o amor morre, a raiva vira indiferença, mas a frustração depende da resignação para ir embora. É muita coisa. É aceitar a impotência, é se reconhecer pequeno.

Esta semana, a vereadora Henriana Lacerda foi vítima de agressão, um antigo colaborador ameaçou-a. Para piorar, o rapaz tinha uma relação muito próxima com a vereadora e sua família. Alegou frustração pelo não reconhecimento do seu apoio.
Não sei se a frustração é legítima ou não, mas eu peço ao leitor fazer um pequeno exercício mental: Se a referida vereadora fosse um homem, como o rapaz lidaria com sua frustração? Não há como negar que o gênero é um fator determinante, agravado pela convivência de ambos, a mulher não espera agressão de quem está perto, infelizmente os números mostram o contrário, é na convivência que o agressor sente-se seguro para avançar contra a vitima, seja por palavras ou atos. A civilidade e urbanidade são obrigatórias para qualquer gênero, mas na prática, um gênero sofre mais que outro.
A câmara de São Sebastião tem se revelado um ambiente hostil para mulheres, enquanto não tratarem o assunto com a seriedade necessária, continuaremos vendo a crescente de violência e desrespeito. Quando nem mesmo uma parlamentar está livre de ameaças e agressões a gente começa a entender os números de violência de gênero no litoral norte.

Em conversa com a vereadora, ela reafirmou sua posição “Mais do que um episódio isolado, trata-se de uma realidade que muitas mulheres enfrentam ao exercerem seus mandatos e posições públicas: tentativas de intimidação, deslegitimação e silenciamento por meio de agressões.” Está mais do que na hora de dar um basta, infelizmente ou felizmente, o basta deve vir de todas nós, homens e mulheres, porque só as mulheres não parece ser o suficiente.

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Do discurso à ação. https://alcatrazes.com/do-discurso-a-acao/ Fri, 27 Mar 2026 18:22:50 +0000 https://alcatrazes.com/?p=698

A deputada estatual Solange Freitas (UNIÃO BRASIL) veio até São Sebastião encontrar-se com o ex-prefeito Felipe Augusto, a conversa de bastidor seria uma eventual parceria para as próximas eleições. Tudo certo, só tem um problema: A principal bandeira da deputada é a violência contra a mulher, já Felipe Augusto responde alguns processos por agressão doméstica (abertos por diferentes parceiras).

A situação levanta tantas possibilidades que foi difícil manter só uma linha narrativa.

Antes de escrever o texto, mandei uma mensagem para a deputada, na esperança de receber alguma justificativa, mas como esperado, não obtive resposta. Sem resposta, acabo mergulhada em hipóteses, elenco apenas três:

1 – A deputada é mal-informada. Ela se desloca até São Sebastião para conversar sobre uma eventual aliança política, mas não sabe dos processos do ex-prefeito. Na verdade, não precisava nem ir tão longe, só ver os prints, trechos de vídeos que o próprio postou, já daria para ter uma ideia do que ele pensa sobre as mulheres;

2 – A luta da deputada é pro forma. Seu instagram é recheado de depoimentos, denúncias e conquistas para as mulheres, a deputada faz parte da Comissão de Defesa e dos Direitos das Mulheres na ALESP. A percepção que passa é de uma deputada bem ativa, a própria deputada grava vídeos indignada com agressores, posta fotos deles com a legenda “procurado”. Mas nada disto a impediu de articular alianças políticas com um suposto agressor.

3 – Ela confia na ignorância dos eleitores. Uma parceria ambígua alavancaria seus votos, mesmo se associando com o que ela jura combater.

A pior alternativa é a terceira. Não que as outras não sejam suficientemente ruins, mas ao dar espaço, legitimizar a presença de um agressor na vida pública sabendo disto, ela não só joga fora tudo o que diz combater, como também joga no lixo a luta de todas as mulheres. Até quando nós veremos mulheres relativizando comportamentos abusivos? Mulheres que ocupam espaço de liderança. São lutas que não permitem relativismo, exceções.   

Na última eleição, dos 94 parlamentares estaduais eleitos, apenas 25 são mulheres. Apesar de ser um recorde, está muito aquém do ideal. A mulher representa mais de 52% da população mundial e isto não se reflete nas nossas lideranças.

A maior parte das deputadas foram eleitas com discurso contra a violência e políticas públicas voltadas para a mulher. Muito legal, né? Sim, desde que seja de verdade e não fique só em conversa de palanque ou que morra em acordos nebulosos.  

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A Sangria do Feminicídio: Controle, Misoginia e a Urgência de Mudança Cultural https://alcatrazes.com/a-sangria/ Mon, 23 Mar 2026 16:02:28 +0000 https://alcatrazes.com/?p=693

A luta pela igualdade de direitos das mulheres, travada ao longo de décadas, trouxe conquistas importantes que hoje são consideradas mínimas, mas fundamentais: o direito ao salário igual ao dos homens na mesma profissão, o direito ao voto, à livre expressão de opinião, ao trabalho fora de casa e ao divórcio. Apesar desses avanços, muitas mulheres ainda não conseguem exercer plenamente o direito mais básico que é escolher com quem se relacionar.

As mulheres ainda são vistas pelos homens como objetos que devem obediência absoluta, o que contribui para a persistência do feminicídio como uma forma de controle e punição.

O aumento registrado nos casos de feminicídio no Brasil — que atingiu recorde em anos recentes, com 1.568 vítimas em 2025, alta de cerca de 4,7% em relação ao ano anterior, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública — pode estar relacionado ao maior acesso das mulheres ao feminismo e à consciência de seus direitos. Ao reconhecerem relacionamentos tóxicos e abusivos, muitas decidem romper com eles. É exatamente nesse momento de tentativa de separação ou rompimento que o risco de feminicídio se intensifica, pois o agressor reage à perda de controle com violência letal. Assim, o crescimento dos números não reflete necessariamente mais violência em si, mas maior visibilidade e denúncia da violência já existente, somada à reação violenta de homens que não aceitam a autonomia feminina.

Além da legislação (como a Lei do Feminicídio) e da atuação efetiva do Estado na aplicação das leis, é essencial ir além: pais e mães precisam assumir responsabilidade na educação dos meninos. Ensinar apenas as meninas a se protegerem é insuficiente; é preciso educar os meninos para o respeito à igualdade e mantê-los afastados de movimentos masculinistas tóxicos, como o denominado **red pill**.

Esse movimento, de caráter misógino, prega a supremacia masculina e a subordinação das mulheres. Ele tem arregimentado principalmente adolescentes e jovens por meio das redes sociais, incluindo plataformas como o Discord  — originalmente usada por gamers para interação online, mas que tem servido de espaço para disseminar ódio às mulheres (misoginia). O que antes eram garotos introvertidos, com poucas conexões sociais ou afetivas não atendidas no ambiente familiar, encontram nesses grupos virtuais um senso de acolhimento e pertencimento. Nesse ambiente, são estimulados e desenvolvem uma visão tóxica em que culpam as mulheres por seus próprios fracassos, frustrações e rejeições, reforçando a misoginia como identidade.

O combate à violência de gênero está, portanto, intrinsecamente ligado à conexão familiar e à educação desde a infância. É no lar que as crianças aprendem a respeitar as diferenças entre meninos e meninas — ou, ao contrário, a diminuir e subjugar as mulheres. Atos simples no cotidiano de uma família fazem diferença:

– Solicitar que o menino participe da limpeza e dos afazeres domésticos, valorizando o trabalho majoritariamente realizado por meninas e mulheres;

– Mostrar que ninguém nasce sabendo faxinar — as meninas são ensinadas, e os meninos também podem e devem aprender;

– Envolver o filho nos cuidados com irmãos mais novos, para que entenda que cuidar de crianças não é “coisa de mulher”, mas responsabilidade compartilhada de pais e mães.

Portanto, para estancar a sangria da epidemia de feminicídio que assola o Brasil, são necessárias ações articuladas em múltiplas frentes:

– Regulamentação mais rigorosa da internet**, com responsabilização das plataformas pelo combate à disseminação de conteúdo de ódio contra mulheres;

– Enrijecimento das penas** para crimes contra a mulher, tornando-os inafiançáveis e com punição efetiva;

– Educação familiar com perspectiva feminista, que ensine desde cedo que meninos e meninas têm iguais direitos e deveres — na esfera social, econômica e política.

Somente com essas medidas combinadas — leis fortes, fiscalização digital responsável e mudança cultural profunda na criação dos filhos — poderemos avançar de fato rumo a uma sociedade em que as mulheres exerçam plenamente sua autonomia sem que sejam mortas por isso.

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8 de março https://alcatrazes.com/8-de-marco/ Tue, 10 Mar 2026 13:34:18 +0000 https://alcatrazes.com/?p=689

Mais um 8 de março chega e nós, mulheres, sem motivos para comemorar. O estado de São Paulo registrou um aumento alarmante nos casos de feminicídio, com um crescimento de 96,4% nos últimos quatro anos. O ano de 2025 encerrou com 270 mulheres assassinadas, o que corresponde a uma mulher assassinada a cada 33 horas, onde 70% aconteceram dentro de casa. DENTRO DE CASA.

Mais um 8 de março chega e nós, mulheres, sem motivos para comemorar. O estado de São Paulo registrou um aumento alarmante nos casos de feminicídio, com um crescimento de 96,4% nos últimos quatro anos. O ano de 2025 encerrou com 270 mulheres assassinadas, o que corresponde a uma mulher assassinada a cada 33 horas, onde 70% aconteceram dentro de casa. DENTRO DE CASA.

Sempre importante reafirmar que os números no qual nos referimos aqui são o registro de crimes cometidos com motivação gênero, diferente do crime comum que não levam em conta o gênero da vítima.

Entendo que estas mortes são resultado de pouca seriedade ao discutir políticas públicas. Quando o Governo Federal, depois de um hiato de 10 anos, promoveu uma Conferência para discutir políticas públicas para as mulheres, o Governo Estadual, por sua vez, tentou limitar nossa participação, impondo pautas e ignorando nossas demandas. Graças a nossa coragem, união e luta para que nossos direitos fossem respeitados participamos da 5° Conferência Nacional de políticas para Mulheres e conseguimos defender nossas pautas.

Somos muitas e diversas. Mães, tias, irmãs, avós, evangélicas, ateias, pretas, brancas, cis, trans, etc.. Mas infelizmente, nenhuma de nós está a salvo.

Os crimes contra mulheres são esmagadoramente cometido por homens, e próximos. São pessoas que confiamos, cuidamos e criamos.

O caminho para mudar esta realidade é aprender a nos valorizar, assumir o protagonismo da nossa história, conquistando nossa independência financeira e não aceitar qualquer migalha de atenção.

E é sempre bom lembrar que, mulher vota em mulher. Para dai, quem sabe, poderemos comemorar os próximos 8 de março.

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Tendas Violetas https://alcatrazes.com/tendas-violetas/ Mon, 09 Mar 2026 14:52:12 +0000 https://alcatrazes.com/?p=683

Em 2024, Caraguatatuba foi apontada como uma das cidades mais violentas do estado, de acordo com a Secretaria de Segurança Pública (SSP). Caraguatatuba liderava o ranking de assassinatos no Litoral Norte/Vale do Paraíba, com 29 ocorrências. Já em 2025 o número cai para 16 casos e, no início de 2026, apresenta o menor índice em 25 anos.

Os resultados são motivo de orgulho, mas infelizmente não dá para comemorar, no mesmo período, houve um aumento nos crimes de estupro, registrando a maior média desde 2001 na região do Litoral Norte/Vale do Paraíba e quando o assunto é estupro de vulnerável, Caraguatatuba aparece em terceiro lugar entre as 10 cidades com maior ocorrência. Estes números não representam a realidade, já que, de acordo com o Mapa Nacional de violência de Gênero, em 2025 58% das mulheres que sofreram violência não procuraram uma delegacia. A subnotificação é uma das maiores barreiras para a elaboração de políticas públicas de enfrentamento.

Caraguatatuba tem se empenhado com ações preventivas e de conscientização, como o ciclo de palestras durante o “Agosto Lilás”, “16 dias de ativismo pelo fim da violência contra a mulher” realizado em novembro e o “tempo de despertar” voltado para a reeducação de homens infratores.

Para o enfrentamento, as mulheres com medidas protetivas podem contar com o aplicativo “SOS Caraguá para elas” com acesso rápido da GCM, Delegacia da Mulher e atendimento jurídico gratuito através da OAB – Caraguatatuba.

Outra iniciativa muito importante será a implantação das “Tendas Violetas” em eventos realizados em Caraguatatuba. A ação é amparada pela lei 2773/25, de autoria do vereador Marcelo Pereira (AGIR36) destinado à prevenção de abuso, assédio ou importunação sexual em eventos realizados em Caraguatatuba.

A lei determina a instalação de uma tenda em eventos com uma equipe multidisciplinar com assistente social, GCM e conselho tutelar. O atendimento é para todos os gêneros, etnias, idade, classe ou orientação sexual. Além do pronto atendimento, as tendas distribuirão panfletos, informativos e demais materiais de conscientização. Disponibilizar um espaço seguro com uma equipe preparada para este tipo de violência fará a diferença. Confesso que fiquei bastante empolgada com a iniciativa, porque enfrenta o problema da violência de gênero em diversas frentes:

– Reforça e amplia políticas de conscientização ao levar informação a um público diverso e principalmente jovem, não restringindo a informação apenas aos espaços de acolhimento;

– A segurança ostensiva coíbe delitos e reforça a relevância do tema dentro das diretrizes de segurança e administração pública. O maior objetivo de quem luta contra a violência de gênero é impedir o ato, seja por conscientização ou coibição;

– Combate à violência estrutural no atendimento à mulher. Após sofrer a violência, a vítima está sujeita a mais violência. Seja na obrigação de repetir seu depoimento diversas vezes para diferentes pessoas, ou à mercê de julgamentos morais ou descredibilidade. Não é raro, responsabilizar a mulher pela agressão ou minimizar o relato;

– Subnotificação. Ao criar espaços “seguros” o poder público combate a subnotificação e, com dados mais próximos da realidade, garante a elaboração de políticas públicas mais eficientes.

Apesar da lei ser de 2025, as tendas ainda não começaram a funcionar. Sigo na torcida para que a lei se cumpra o mais breve possível e inspire as outras cidades a fazerem o mesmo.

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Águas de março https://alcatrazes.com/aguas-de-marco/ Thu, 26 Feb 2026 15:42:49 +0000 https://alcatrazes.com/?p=678

Quem vive ou está de passagem pelo litoral norte nesta época do ano é norteado pelas chuvas. Os alertas de tempestade passam a ser quase diários.  São tantos gritos de “É o lobo! É o lobo!” que a gente começa a ficar anestesiada. Não estou reclamando, eu entendo que prever é quase mágica. Previsão de 300 mm, chove 70 mm. Previsão de 150 mm, chove 800 mm.

Você cuidando da sua vida e vem a chuva. A chuva não para. A chuva engrossa. A chuva persiste. Dou uma olhada no rio, dentro da normalidade. Tábua de mares e fase da lua. Equação e fé. E a chuva continua no mesmo ritmo. Começo a percorrer os grupos da cidade para saber sobre barreiras, pontos de alagamento ou acidentes. Acaba a luz e junto com ela a internet. Celular e espiada no rio. E a chuva chovendo, sem se importar com o meu sofrimento. Parece até que fica mais forte, só para me atormentar. Perdi o sono. Moro em um lugar alto, vejo a tragédia de longe, mas preciso de rota de fuga. Nos grupos um monte de oração e frases feitas, pouca informação útil. E culpam a população por jogar lixos na rua, culpam os políticos por não olharem a população. Sério, eu não sei como as pessoas conseguem ficar presas nestes loopings mentais. Não cansam? Eu consigo até visualizar a cara do cidadão quando, no meio de um temporal, gente com água nas canelas e ele decide que o comentário mais inteligente é reclamar do lixo nas ruas. Se liga, palestrinha.

Enquanto eu estava no impasse entre dormir ou correr pelas estradas sem destino, recebo um boletim da prefeitura e defesa civil: Caiu uma barreira em Juquehy e abriram um ponto para receber as pessoas.

Em 2023, após a tragédia que matou 65 pessoas, foi muito difícil saber o que fazer, principalmente porque as informações chegavam desencontradas. Uma das barreiras caiu ao lado da minha casa, a informação correu, mas não impediu que centenas de pessoas tentassem sair da costa sul pela tamoios. Após um breve tempo, recebo outros boletins, mesmo com a chuva ainda forte, fui dormir. situação estava sobre controle. A chuva ainda tentou me intimidar ficando mais forte, não adiantou. Decepcionada, resolveu diminuir o ritmo. Novo alerta, barreira removida e situação sobre controle.

Entendo que os boletins são mais importantes do que os alertas de tempestade. Eu não sei como são disparados os boletins, se estão separados por regiões, ou sei lá quais outros critérios podem balizar o serviço, mas ajudou.

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O Tomador de Conta https://alcatrazes.com/o-tomador-de-conta/ Thu, 26 Feb 2026 15:23:29 +0000 https://alcatrazes.com/?p=674

Aqui em São Sebá, sou um faz quase-tudo. Além de pescar, eu também faço
rango (e lavo a louça, sim), passo uma vassoura na área externa (tá bom, tá
bom, de vez em quando), espalho quirera e ponho bananas para os
passarinhos no quintal, cuido da frente da casa, do jardim e de minhas plantas
– meu caramanchão de maracujá está carregado (da primeira florada e logo
vou colher alguns para dar uma cor à minha vodca), além de fazer um monte
de outras coisas que um bom tomador de conta faz.

Sim, eu tomo conta de algumas coisas porque, se eu não fizer, ninguém faz (ou
ninguém faz porque eu faço, sei lá) – tipo apagar luzes em cômodos vazios,
desligar a TV quando ninguém está vendo, colocar água no filtro, esvaziar os
cestinhos de lixo, tirar o lixo, separá-lo e colocá-lo no lugar certo para a coleta
etc etc etc – ou seja, o mesmo que todos fazemos em nossas casas.
Mas não o Almeida. Ele não toma conta só da casa dele. Ele toma conta de
tudo de todo mundo. O que ele vê ou sabe tem que estar do jeito que ele acha
certo. Vive criticando a forma com que os vizinhos fazem qualquer coisa:

  • “Pô, eles deviam amarrar o saco de lixo assim e assado, não do jeito que
    está, pode vazar na rua”.
  • “Droga, o seu Zé devia apagar a luz da garagem, vai ficar acesa o dia
    inteiro…”
  • “Credo… o coronel devia podar melhor essas plantas… tá sobrando dos
    lados…”
  • “Nossa, o fulano ali precisa mandar cortar a grama…”
  • “Não sei como eles ficam dormindo até tarde desse jeito…”
  • Olha só, olha só… roupa pendurada na janela! Eles não tem vergonha…” E por aí vai. Mas, pior ainda, ele fica “tomando conta” do que você está
    fazendo quando está com ele! Tava eu pescando outro dia desses, lá chega o
    Almeida – justamente na hora que eu tinha acabado de enroscar minha isca
    numa pedra e estava tentando tirar com jeito para não arrebentar – e ele logo quis “me ensinar” a como tirar o enrosco, pois “do jeito que você está fazendo não vai conseguir”. Pegou a linha… puxa daqui, puxa dali e – claro – nada de soltar. Entrou na água, saiu da água, andou pra lá, andou pra cá, mas não tinha jeito. Tava preso mesmo. Ficou um tempão nisso… e eu ali com cara de tacho.
    Aí, eu tomei a decisão que tinha de ser tomada: puxei a linha até arrebentar.
    Faz parte do negócio pescaria, né? Pois o Almeida ainda reclamou comigo: “Pô, você apelou, eu já ia soltar essa linha. Agora você perdeu sua isca
    artificial!”
    Pensei comigo: “É, Almeida, eu perdi a p de um camarãozinho artificial. Que
    melda, não?”. E fui pra casa cuidar da vida. Da minha vida.
    E você, tem algum Almeida por perto?

Abril/2014

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Aniversário de São Paulo https://alcatrazes.com/aniversario-de-sao-paulo/ Sun, 25 Jan 2026 19:34:32 +0000 https://alcatrazes.com/?p=666

Feliz Aniversário São Paulo!

Imagem e texto de Daniel Navarro

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Sobre trolls, hienas e políticas públicas https://alcatrazes.com/sobre-trolls-hienas-e-politicas-publicas/ Wed, 21 Jan 2026 15:14:01 +0000 https://alcatrazes.com/?p=662

Ontem, dia 20 de janeiro foi comemorado dia de São Sebastião, nosso patrono.

Para quem é de fé, ou não, é hora de respirar fundo e encarar 2026. Ano eleitoral é sempre complicado, mesmo que a eleição não seja para a esfera municipal, as cidades sentem e muito. Tem gente tentando, genuinamente, conquistar um cargo federal (o que seria ótimo para a região), outros testando sua popularidade e a oportunidade para visitar as pessoas mirando futuras eleições e tem também, as hienas. Gente que aparece de tempos em tempos só para tumultuar. Acredita que denúncias e gritarias virtuais vão garantir algum destaque. Dia sim e outro também estas figuras aparecem esbravejando frente a qualquer problema. Curioso que elas pulam de um problema para o outro, com a mesma energia, dependendo da reação da audiência. A questão não é o problema em si, mas a visibilidade que a gritaria e indignação podem gerar.

No começo de janeiro, uma jovem perdeu a vida em um ônibus em São Sebastião. Difícil chamar de acidente, tenho para mim que acidente é outra coisa. Mas estão investigando e eu espero de coração que encontrem os culpados e sejam responsabilizados, perder a vida de uma forma tão banal tornou tudo mais hediondo. Tinha 26 anos e dois filhos. Eis que aparecem os justiceiros de ano eleitoral, querem porque querem politizar. Seguem em manobras mentais mirabolantes para que os aliados sigam inocentes e adversários políticos culpados.  Zero compromisso com a dor, a perda ou a realidade. É só palco. Do dia 6 ao dia 20 de janeiro passamos do “nunca te esqueceremos” ou “justiça para a família” para o total silencio. Não se comenta mais, sabe por quê? Porque a audiência não permitiu a politização do caso.  Eles se envergonham? Imagine. Depois que o circo passou, a família continua em luto. Eu acho que há maneiras mais dignas de ganhar dinheiro, mas enfim.

Depois a grande denúncia do momento era a não publicação da LOA, mesmo com a PPA e a LDO publicadas. Administração publicou a LOA e explicou o atraso por problemas técnicos. O que foi encarado como “um grande erro de gestão” ou ainda que “A sociedade de São Sebastião não pode ser refém de “explicações técnicas”. A figura nunca apareceu em nenhum dos encontros promovidos para a discussão do orçamento e pessoalmente não consigo ver alternativa para discussão pública sem explicações técnicas. Sabe por que este povo não vai até o ministério público? Porque sabem que não há nada ali, só gritaria para tentar alguma relevância.

Agora, a indignação da semana são “áudios vazados” de suposto esquema na banda municipal. Uns três gritaram, como não houve eco, as hienas políticas se recolheram e logo passarão para o próximo assunto.

A cidade passa por problemas sérios, há desafios reais como lixo, meio ambiente, abastecimento de água ou energia, equilíbrio das contas públicas, fluxo turístico, empregos, etc. Há um espaço enorme para discutir a cidade, apresentar soluções ou apontar problemas, mas para as hienas eleitorais o importante mesmo é sua performance.

A sociedade tem dado pistas sobre a mudança de comportamento, acho que cansamos dos TROLLs. Um exemplo bem didático para o que eu quero dizer, foi a participação relâmpago do participante Pedro no BBB, ele era uma figura desinteressante e sabia disto, em busca de relevância tentou emplacar alguns conflitos com comportamento errático. A ideia, apesar de batida, já funcionou outras vezes, o problema foi a execução dele e a exaustão das pessoas, nem o público e nem os outros participantes embarcaram na dele. Não se fala mais dele, nem mesmo para criticar, riscado da vida pública como deve ser.

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Legado cultural? https://alcatrazes.com/legado-cultural/ Thu, 08 Jan 2026 13:24:14 +0000 https://alcatrazes.com/?p=659

Em Boiçucanga, há um bloco chamado Vai-Quem-Quer.

Cinquenta anos de história.

Carrega em seu samba a palavra “legado” como se ela, sozinha, pudesse se sustentar no ar. Um bloco que se diz caiçara, comunitário, resistente. Um bloco que fala de resistência, mas tem esquecido como praticá-la.

Não sou daqui. Sou de São Paulo. Moro aqui há nove anos, tempo suficiente para entender que o litoral não foi apenas ocupado por casas de veraneio. Existe uma cultura que chega com mais força do que escuta. Em 2019, fui chamado como músico para cantar no bloco. Aceitei porque vi algo raro: um espaço que falava da terra, da pesca, da comida, da origem. Um bloco que parecia dizer: ainda estamos aqui. Cheguei de ouvidos abertos e boca fechada, falando quando solicitado, ouvindo e aprendendo sobre as coisas daqui com a comunidade local.

Quando cheguei, vi um bloco com ritmistas cheios de orgulho e que misturava referências, como todo carnaval faz, mas tinha foco. Sambas da região, marchinhas, músicas populares adaptadas, bateria na rua e, sim, sambas-enredo do Rio. Tudo cabia, porque nada ofuscava o essencial. O desfile tinha um propósito. Era o dia do grito do caiçara. Mas parece que o grito emudeceu.

Em 2023, no dia que deveria celebrar a cultura local, o bloco decidiu cantar 100% sambas do Rio de Janeiro. Não havia sambas da região. Nenhum refrão que falasse do chão, do mar, do povo dali. Em vez de “somos dessa terra, raiz desse chão”, ouvimos o eco distante lá da guanabara como se importasse “que ti ti ti é esse que vem da Sapucaí”. Não por alguns momentos, mas por todo o desfile.

Minha parte não foi cantada. Fui convidado, deixei de trabalhar e de ganhar dinheiro para me tornar um figurante em um carro de som junto com minha parceira Rô Cabelini, caiçara de Boiçucanga, batizada na Igreja da Praça da Mentira, onde ensaia o bloco, cantora respeitada no território e que se apresenta nos palcos da prefeitura, mas que também foi silenciada. Uma viagem não avisada. Um desrespeito não declarado. E, como sempre, normalizado.

O problema não é cantar samba do Rio. O problema é trocar identidade por um repertório fácil. É substituir memória por música pronta. É chamar de resistência aquilo que, na prática, é rendição.

A contradição é ainda mais cruel quando se sabe que um dos fundadores do bloco guarda um verdadeiro acervo de sambas e fandangos caiçaras. Músicas que nasceram ali e falam daquele povo e daquela terra. Um tesouro trancado enquanto o bloco que se diz guardião da cultura prefere importar um carnaval inteiro já pronto.

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