Os Galos de Porto de Galinhas

Uma cena lamentável percorreu as redes sociais esta semana, um casal de turistas foi espancado por ambulantes em Porto de Galinhas, Pernambuco.

Foi uma sucessão de horrores, durante o linchamento, as vítimas relatam que enquanto tentavam fugir, procuravam policiais ou alguém que pudesse ajudá-las, mas não havia policiamento e as pessoas só filmavam. Finalmente apareceram alguns bombeiros que, conseguiram a muito custo, tirá-los de lá. Chegando no hospital, não havia equipamento para atendê-los e nem ambulância. Pagaram do bolso a ambulância e alguns exames. Enquanto a governadora de Pernambuco fala nas redes sociais, eles se encontram presos no hotel com medo de saírem às ruas.

A história começou com os preços abusivos, grosserias e uma conta final que não correspondia com o valor acertado previamente. O casal era grosseiro? Não era? o que importa? Adoraria receber dobrado a cada grosseiro que eu encontro, mas não é assim que funciona. Há dezenas de comentários, vídeos e depoimentos nas redes sociais, publicados muito antes da tragédia, e todos acabam corroborando a versão do casal. Há uma cultura de exploração e coerção. A outra opção é reconhecer que há uma grande conspiração mundial contra os ambulantes de Porto de Galinhas.

Onde estão os vereadores e prefeito de Ipojuca? Procurei nas redes e achei uma declaração genérica do prefeito. Um local turístico que recebe quase 2 milhões de pessoas por ano não tem ambulância? Não tem um hospital ou um pronto socorro equipado? Não tem policiamento? Quais são as regras para emitir a licença? Há um teto para as licenças ou quanto mais melhor?

A história me lembrou um acontecimento no começo do ano em Salvador. Os ambulantes resolveram fazer greve porque a prefeitura determinou que as barracas só seriam montadas mediante solicitação do cliente. Os ambulantes fizeram greve e a população aplaudiu. Foi uma greve com grande apoio popular. torciam para que durasse bastante. A praia do Porto da Barra ficou linda sem aquela poluição visual.

A verdade dolorosa é que, sem regramento, estamos a um passo do caos. É legítimo o trabalho do ambulante, se bem-organizado. Alguns anos a prefeitura de São Sebastião limitou o número de barracas por ambulante e determinou que só poderiam montá-los mediante solicitação, o que foi um alívio, não era raro encontrar a praia tomada por guarda-sóis vazios esperando clientes. A praia é pública, utiliza os serviços dos ambulantes quem quer. O litoral norte de São Paulo, como um todo, busca caminhos para encontrar um equilibro, mas não é fácil. O aumento excessivo da população sobrecarrega os serviços e que só piora com o efeito que as frases “estou trabalhando” ou “trabalhei o ano todo” produz nas pessoas. Uma falsa sensação de que você pode fazer o que quiser. Amigão, todo mundo trabalha, ninguém ganha medalha ou vira herói nacional depois de um dia de trabalho.

Estima-se que em 2025 o Brasil recebeu 9 milhões de turistas estrangeiros, só para fazer uma comparação, Vietnã recebeu mais de 21 milhões no mesmo período. Se este número dobrasse em 2026, teríamos condições de recebê-los?

Outro ponto é a como nós nos transformamos em produtores de espetáculo. Você vê uma pessoa sendo linchada e sua primeira reação é sacar o celular e gravar. Sério? Minha crítica passa longe de profissionais que conseguem manter o foco mesmo durante os momentos mais críticos, cobrir guerras e desastres não é para qualquer um, eu mesma sou do tipo que larga a câmera e tento ajudar. Documentar situações extremas é fundamental e os celulares são responsáveis por muito mais transparência nas relações interpessoais. Mas, posto tudo isto, ainda assim, me choca ver pessoas gravando o sofrimento alheio por diversão. Parabéns pelo engajamento!

Seria fácil se o problema fosse só em Porto de Galinhas, mas não é. Verão virou sinônimo de sofrimento: música alta 24h por dia, filas quilométricas para qualquer coisa, brigas generalizadas, gente bebendo pelas ruas como se não houvesse amanhã, trânsito caótico enquanto você derrete sobre um calor de mais de 40º. Tenho para mim que, se existir inferno, é assim que as pessoas malvadas vão passar a eternidade: Presos no verão brasileiro com seu sofrimento gravado pelos transeuntes 24h por dia.

sobre o autor

  • Formada em comunicação com habilitação em cinema, trabalhou em diversos festivais dentro e fora do Brasil. Foi curadora e produtora de cinema, atualmente trabalha com pesquisa de mercado, comunicação institucional e marketing político

    Ver todos os posts

Sobre o autor

Categorias:

Tags: