São Sebastião insiste em brigar com a vidraça quebrada ao invés da pedra que a quebrou.
Antes, uma história.
Horas antes da votação das contas de 2022 do ex-prefeito na câmara de São Sebastião, a vereadora Maria Ângela recebeu uma ligação nada republicana de Felipe Augusto. O ex-prefeito falava claramente em coagir e chantagear os vereadores para aprovarem suas contas, mesmo com o parecer desfavorável do TC. No auge do coronelismo digital, o ex-prefeito ameaçou usar suas rádios para difamar os que resolvessem se insurgir. Incomodados pelo rumo da conversa, pessoas presentes começaram a gravar a conversa com outro celular.
A sessão aconteceu, os vereadores seguiram as orientações do Tribunal de Contas, as contas foram reprovadas e ninguém foi cassado.
O show de horror começou logo no dia seguinte. O ex-prefeito, inconformado com o que ele chamou de traição (??), usou seu perfil nas redes sociais para ameaçar e difamar alguns dos vereadores. Ganhou um B.O. e vai ter que provar na justiça o que acusou. Não satisfeito, o ex-prefeito também entrou na justiça alegando que não sabia da votação na câmara e que lhe negaram o direito à ampla defesa. Tadinho.
Ora, ora… Não sabia da votação, mas ligou ameaçando?
Maria Ângela transcreveu o áudio e registrou a transcrição no cartório. A ata notarial foi anexada ao processo, o áudio não só comprova que o ex-prefeito sabia da votação, como também tentou interferir.
Perceba, a vereadora não divulgou áudio e a conversa só foi gravada porque caminhava para um lugar sombrio, ela se resguardou. Eu não faria diferente.
Fim da história. Fim?
A história terminaria aí, até que um jornalista da cidade solicitou a ata referente a gravação e publicou uma matéria, curiosamente, na matéria não há começo ou fim, se resume a gravação. E qual é a reação de uma parcela da população? Chama-la de traíra. Expressão como “cuspiu no prato em que comeu” foi uma das mais brandas. Ou seja, alguns munícipes acham que servidor come na mão de prefeito e que, de alguma forma, devem algo a ele. Quer uma coincidência? Logo depois da matéria publicada, perfis ligados ao ex-prefeito e suas rádios começaram uma campanha de difamação contra a vereadora. A história é tão pueril que alguns dos perfis chamaram-na de brega.
Brega é coagir, difamar, tratar a prefeitura como um puxadinho ou vereadores como vassalos, mas cada um carrega a educação e valores que recebeu.
Como toda história que envolve o ex-prefeito, de alguma forma termina na polícia, desta vez não foi diferente. Esta semana a polícia federal deflagrou a operação “Perseu 7” que investiga a venda de dados pessoais e, o enteado de sua irmã, a ex-secretária de turismo Tutu Balbo, foi um dos alvos da operação. Eu adoraria colocar na conta deste imbróglio a prisão realizada semana passada contra o suspeito em uma investigação sobre perfis falsos usados para difamar, mas não posso. Deve ser só coincidência.
Para além do comportamento deplorável de ameaçar e coagir, se realmente se importasse com os interesses do município, deveria informar qualquer malfeito imediatamente às autoridades e não guardar as informações para usá-las oportunamente.
Criticar a vereadora por que traiu a confiança? Que confiança? Estamos falando da coisa pública, votar em contas não deveria ser pautado por amizade ou favores, mas de forma técnica e nos interesses da população.
Como munícipe, gostaria muito de ver todas estas informações entregues ao Ministério Público, o ex-prefeito poderia aproveitar este momento e fazer algo de bom para a cidade, mesmo que pelas razões erradas.
