Estávamos na esquina da rua aqui de casa – ao lado do boteco aqui localizado
(onde muuuuito de vez em quando eu vou) – eu e alguns amigos de copo e de
linha, falando de peixes e tals. De repente, passa um sujeito e pergunta a
todos, de um modo geral – já que o assunto era peixe – onde poderia alugar
um barco para uma pescaria que estava querendo fazer. Claro, não faltou
indicação e o camarada logo se enturmou na conversa.
Papo vai, papo vem, o Japonês (frequentador assíduo do boteco) pergunta: – “O Sr deve ser de São Paulo, capital, não?”.
Ante a concordância do cara, o Japonês completa: – “Adivinhei pelo sotaque.
Paulistano coloca sempre um “i” quando a palavra termina em “enta”, é
seteinta, oiteinta… veinto…, além do “meu”, claro, que colocam em tudo. Não é
isso, meu?”. Risos.
Aí, o paulistano também brincou: “E os cariocas? Além do “R” todo rasgado,
para eles não existe o “S”, trocam tudo por “X” com som de “ISH” – na maioria
das vezes, mas também usam o “J”. É maish, menosh, bashtante, ishquina,
ishquerda, tudo o que tem “s” vira “ish”. TV por assinatura? Shcai! Acendedor
de cigarros? Ishqueiro! Nos plurais, se a palavra tem mesmo um “x”, então, é
uma feshta… caixash, peixesh, caximbosh.. Ou então é lejma, sofijma, crijma…
Não é isso mejmo?” Como não tinha nenhum carioca presente (fora eu, que fui
carioca-do-brejo por muito tempo e nem toquei nesse questão, né?), todos
rimos muito.
O paulistano, já enturmado (nessa altura já estávamos numa mesa do Maré
Mansa bebendo uma gelada), estava à vontade. Falamos dos mineiros (“uai,
sô!, trem bão, sô!”), dos gaúchos (“Bá, tchê, que barbaridade!”), dos
nórdestinos (“Vixe, meu padim ciço, ó xente…”), dos baianos (“que isso, meu
Rei, depois a gente procura um trabalho…”) e por aí foi. Mas, logicamente, não
falamos dos locais.
Bem… o sotaque daqui de São Sebá é praticamente o mesmo do paulista do
Vale do Paraíba (talvez pela proximidade), com o “r” forte da forma considerada
“caipira” em qualquer cidade do Estado do Rio. O “caipirês” de toda essa região
foi imortalizado pelo taubateano Amácio Mazzaropi em diversos filmes
(firmes?), com seu Jeca Tatu exagerado.
Interessante é que aqui também se utiliza, no popular, a inversão de letras que
eu só tinha ouvido em Pinda e Taubaté: “treminar” por “terminar” e “estrovar”
por “estorvar” (lembro de um de meus tios açougueiros pedir a um dos filhos:
“Tira daqui esses osso que tão me estrovando pra que eu tremine esse serviço
de cortá as carne!”). Acrescente a isso a forma popular de não falar o “LH” em
algumas palavras (trabaio, aio, fôia… o que é muito comum Brasil afora) e
temos um retrato interessante da coisa. Sabem o que é um “cuei caoi”? Não? E
“juei junto”?
Outubro 2013

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